TV digital: mais distante do que se pensa, diz Boni

Para o ex-vice-presidente da Rede Globo, a tecnologia vai levar 30 anos para ser dominante. Com uma palestra sobre a TV e a propaganda, realizada pelo ex-vice-presidente da Rede Globo e sócio da TV Vanguarda, José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, começou ontem, no World Trade Center, em São Paulo, a 16ª edição do MaxiMídia, promoção do Grupo Meio & Mensagem, que reúne até amanhã profissionais de comunicação e marketing.

A polêmica ficou por conta da observação de Boni sobre a tão falada implantação da TV digital no País, que segundo ele não vai acontecer tão cedo, embora o governo estime em dez anos a sua implantação completa. "Pode multiplicar por três esse tempo, mesmo considerando que o brasileiro é ávido por novidades".

Para Boni quem vai se beneficiar, realmente, da tecnologia digital é a indústria fabricante de aparelhos de TV, pois o País tem hoje 50 milhões de televisores analógicos, que deverão ser trocados para a captação das imagens e audio digitais. Segundo o executivo esta é uma tecnologia imposta.

"No Brasil fazem as coisas na ordem inversa. Em vez de se discutir primeiro o negócio, começou-se a discutir a tecnologia a ser implantada. Ninguém ouviu o consumidor para saber se ele queria outra tecnologia ou estava satisfeito com o serviço recebido. Pois pode-se melhorar o som e a imagem, mas a programação vai ser a mesma."

Para Boni, o impacto da televisão digital será muito menor do que o registrado quando da chegada da TV em cores. "A TV digital vai interessar mais aos telespectadores das classes mais ricas, por status." Dessa forma, a TV digital vai demorar a chegar a todos os espectadores.

Para o ex-todo poderoso da Globo, a implantação do novo sistema vai promover uma elevação de custos em todo o setor, desde as emissoras, produtoras até o consumidor final. "Os investimentos de rede serão brutais", disse, citando a Globo como exemplo. "Um gerador digital de alta definição (HDTV) custa US$ 6 milhões. A Globo tem mais de 100 emissoras, o que significa um investimento de US$ 600 milhões, foram as retransmissoras, que são mais de 3 mil. Assim será preciso investir alguns bilhões de dólares."

Ainda em sua palestra, Boni chamou atenção para o "engessamento" da atual estrutura de programação, pois o modelo tecnológico a ser adotado no Brasil - um híbrido do sistema japonês com tecnologia local, que utiliza taxa de compressão MPEG4 - não abre espaço para novas emissoras. Fazendo uso de ironia, Boni disse ainda que o modelo de negócios depende de regulamentação e "essas coisas andam rápido no Brasil".

Para Boni não há muito a fazer em termos de interatividade. Segundo ele, a tecnologia digital não oferece muito mais nesse sentido do que a analógica. "Para haver interatividade, é preciso uma via de duas mãos, que não vai existir. O contato com a emissora ainda vai depender da telefonia ou da internet, como é hoje".

O telespectador pode participar de um programa votando, como era o caso do "Você Decide", programa da Globo com três finais para a mesma história, mas não pode mudar o final da novela. "Hoje, o controle remoto é a maior interatividade que a TV permite".

Sobre a convergência das mídias, Boni acredita que alguma convergência vai haver, mas isso não acaba com as ações integradas de marketing. Hoje, os anunciantes querem saber do retorno. "Para isso, as aferições das diversas mídias terão que ser feitas com cuidado, pois o anunciante não quer jogar dinheiro no lixo."

(Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 6)(Lourdes Rodrigues)





Informação: Abert/ Telecomunicações - Gazeta Mercantil - SP - Caderno C - Comunicação






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