Artigo sobre a Voz do Brasil - Diário de São Paulo

Abaixo, um artigo publicado no Jornal Diário de São Paulo  que aborda o tema "Flexibilização da Voz do Brasil".

 Fonte: Diário de S. Paulo – Coluna: Nossa Opinião

Data:29.06.2012 -  pág. 8

VOZ DO BRASIL, VOZ DE DITADORES

Está na pauta da Câmara, em Brasília, um projeto que flexibiliza o horário obrigatório de transmissão da Voz do Brasil. Tudo indica que nossos deputados vão perder a oportunidade de eliminar um entulho autoritário existente desde a década de 1930. Hoje, todas as rádios brasileiras são obrigadas a colocar no ar essa propaganda governamental às 19h. Algumas conseguem driblar a obrigatoriedade, deixando de transmitir ou jogando esse lixo para o meio da madrugada. Mas a maioria tem de interromper sua programação bem no horário em que as pessoas estão voltando para casa e necessitam de informação que oriente sobre os problemas de trânsito no pico do anoitecer.

Bastaria esse transtorno diário para condenar o detestável programa oficial. Houve já dezenas de vezes e que as rádios tomaram iniciativa de desobedecer, prosseguindo com seus noticiários sobre incêndios, enchentes, congestionamentos de véspera de feriadões. Em todos esses casos, os ouvintes se sentiram aliviados e as próprias autoridades reconheceram que não fazia sentido nenhuma punição. Acontece que essa é uma necessidade de todos os dias e em todos os horários: o que as rádios prestam é um serviço abrangente de informação, orientação, entretenimento, formação.

Não faz o menor sentido interromper essa prestação de serviço para colocar no ar um noticiário chapa-branca, uma propaganda mascarada de rádio. Se o executivo, o Judiciário e o Legislativo sentem a necessidade de informar pelo rádio, suas atividades, que usem a enorme estrutura da Radiobrás para colocar no ar a programação oficial, deixando às emissoras de rádio a decisão sobre retransmitir ou não. Se algum dia a Voz do Brasil se tornar um programa atraente objetivamente informativo, com certeza os ouvintes vão se interessar e as emissoras, sensíveis ao apelo de seu público, vão retransmitir.

Mas a verdade é que quase ninguém tem interesse em ouvir esse programa. Os índices de audiência que registra – baixíssimos assinale-se – se devem, sobretudo à inércia. São pessoas que estão com o rádio ligado e continuam com ele ligado. Não são ouvintes que ligam o rádio para ouvir aquele programa. O mais provável é que isso aconteça apenas entre os parentes e funcionários políticos que sabem, de antemão, que estão no ar nesse ou naquele dia.

Além de tudo, nunca é demais lembrar nosso deputados que estamos em plena democracia. Nascida nos tempos do ditador Getúlio Vargas, a Voz do Brasil perpetua-se com um anacronismo, uma excrescência, um entulho autoritário que não combina com a era democrática que o país vive desde 1985. Em vez de flexibilizar, deixando as rádios escolherem um horário entre as 19h e às 22h, o certo é eliminar fulminar, acabar.

 

 


Rádio AGERT

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