"Não basta que seja pura e justa a nossa causa. É necessário, antes de tudo, que a pureza e a justiça existam dentro de nós" - Agostinho Netto, em "Poemas de Angola"
Um grupo de acadêmicos, profissionais e estudantes da área de comunicação - jornalismo, relações públicas e publicidade e propaganda - vêm discutindo, em Curitiba, um tema da maior relevância: Mídia e Responsabilidade Social. Trata-se de um ciclo de palestras promovido pelo Instituto RPC em parceria com a Universidade Federal do Paraná. O objetivo do encontro é debater o "papel, a dimensão e a influência dos profissionais e veículos de comunicação na formação de valores e no desenho da sociedade do século XXI". A rigor, os temas ali debatidos não se coadunam apenas às questões ligadas a comunicação mas ao conjunto da sociedade, afinal a ética é uma condição que se impõe e permeia todo o tecido social. Talvez a diferença fundamental esteja não na importância desta ou daquela atividade, mas na primazia que cada uma representa ao meio social. Quem ousaria afirmar que a função do advogado é mais relevante que a do enfermeiro ou que o químico industrial não tem a mesma importância do bibliotecário?
Face ao momento - o intervalo entre os dois turnos das eleições municipais - discutir a ética política, dos candidatos e sua relação com os meios de comunicação não deixa de ser um tema, no mínimo, instigante. Até porque a mídia, em todas suas vertentes, passou a ter uma importância tão grande no processo eleitoral que é possível questionar se alguns resultados não seriam diretamente influenciados por ela. Basta certificar que as coligações partidárias não têm como objetivo primordial uma composição ideológica ou programática, mas garantir um tempo maior no horário eleitoral gratuito do rádio e da televisão. A população assiste o que se convencionou chamar de "espetacularização da mídia", onde em vez das propostas de interesse social o que vale é o show. Os custos de campanha atingem níveis estratosféricos; profissionais de criação e marketing são contratados a peso de ouro e os institutos de pesquisas se digladiam para testar os eleitores se acreditam nas virtudes deste ou daquele candidato.
Como não bastasse, a parcialidade de alguns órgãos de imprensa - jornais, emissoras de rádio e televisão, sites - distorcendo ou enaltecendo notícias sobre determinadas candidaturas, transforma a mídia num poder acima de suas funções precípuas que é o de informar a sociedade sem nenhum privilegio. Trata-se de uma postura inversa àquela adotada pela imprensa nos Estados Unidos, onde os meios de comunicação costumam declarar apoio a candidatos ou partidos sem omitir de seus leitores a posição assumida. É o que acaba de acontecer na disputa entre Bush e Kerry: 27 jornais, dentre eles o The New York Times, recomendam voto ao candidato democrata e 9 ao republicano Junior. Apesar do compromisso de não privilegiarem nenhum dos postulantes em termos de espaço na cobertura jornalística - o que convenhamos, é difícil acontecer - não deixa de ser ponto positivo usar a franqueza como instrumento de trabalho. No Brasil, durante a campanha presidencial de 2002, a revista CartaCapital foi o único veículo a assumir o apoio explicito ao então candidato Luiz Inácio Lula da Silva.
Sob a ótica da Responsabilidade Social a pergunta que fica no ar é: até que ponto a inexistência de parâmetros éticos nas questões públicas, com todas suas deficiências, rastros de corrupção e malversação do erário público, ou a força abusiva do poder econômico nas eleições à medida que deturpa a verdade, corrompe consciências, compra votos e perpetua dinastias, é culpa apenas dos políticos? Não estaríamos nós, empresários ou profissionais de comunicação, sendo coniventes de alguma forma com este simulacro eleitoral? Ou omissos quando relatamos os fatos sem buscar a verdade?
Ante esse quadro, a primazia e a importância da imprensa é inquestionável. Em circunstâncias semelhantes dois jornalistas americanos foram capazes de mobilizar a sociedade e os poderes constituídos nos EUA para ejetar um presidente da República da Casa Branca a partir de matérias publicadas no jornal Washington Post, enquanto aqui em Pindorama, uma série de entrevistas e denúncias nos órgãos de imprensa fez com que o então presidente Collor de Mello sofresse um processo de impeachment. No caso brasileiro, a história mostra que sem a atuação dos meios de comunicação e a mobilização da sociedade certamente Collor teria concluído seu mandato.
A ética em toda sua extensão é uma via de mão dupla. Não há corrupto sem corruptor, como não haverá responsabilidade social na mídia enquanto as práticas entre patrões e jornalistas não forem uníssonas. Aliás, o jornalista Eugenio Bucci em seu livro "Sobre ética e imprensa", lembra que "é bom não esquecer que a função de fiscalizar o poder está entre as razões que justificam a existência da imprensa. E fiscalizar o poder", reitera Bucci, "significa vigiar governantes e possíveis governantes, ou seja, vigiar os partidos e os políticos, sejam eles da situação ou oposição". Bem que a frase do médico, poeta e ex-presidente angolano, Agostinho Netto, poderia ser exposta nas paredes de todas as redações verde-amarela.
René Ruschel (*)
(*) Jornalista
Informação: Sulrádio/ Comunique-se

