Desenvolvimento digital e eqüidade?

A revolução digital, impulsionada pelas mudanças tecnológicas, está transformando o mundo que conhecíamos até poucos anos atrás. Existe, entretanto, o risco de que milhões de pessoas fiquem à margem das novas oportunidades. O desafio com que os países da América Latina e do Caribe se defrontam é o de como impulsionar estratégias e políticas públicas que assegurem processos de inclusão digital que, promovendo o desenvolvimento, reduzam as diferenças entre ricos e pobres, entre habitantes da cidade e do campo, bem como entre homens e mulheres. Para abordar esse tema os governos da América Latina e do Caribe se reuniram numa Conferência Regional Ministerial no Rio de Janeiro, entre os dias 8 e 10 de junho, que definiu a contribuição da região à Cúpula Mundial sobre a Sociedade da Informação, que se realizará em Túnis, em novembro deste ano. Os países da região, em sua proposta de plano de ação, eLAC 2007, acentuaram iniciativas concretas e metas mensuráveis.

É certo que a região registrou importantes progressos no campo das tecnologias da informação e da comunicação. O número de usuários da Internet, por exemplo, multiplicou-se 12 vezes nos últimos seis anos, o que permitiu à América Latina reduzir um pouco a sua brecha em relação ao mundo desenvolvido. Este sucesso, todavia, é relativo e insuficiente: somente 14% da população da América Latina e do Caribe acessam a Internet, enquanto nos países desenvolvidos mais de 50% da população tem acesso à rede. Essa realidade é ainda pior quando se consideram as zonas rurais e as de baixa renda.

Os avanços no sentido do acesso universal à Internet e aos serviços digitais ajudarão a reduzir a heterogeneidade estrutural, porém isso exige uma combinação inovadora de políticas públicas explicitamente voltadas para o crescimento e para a igualdade. Modernizações regulatórias que incentivem investimentos e diminuam os custos do acesso às telecomunicações, o desenvolvimento da infra-estrutura digital do setor público e o surgimento de redes nacionais de infocentros são três caminhos que facilitarão o acesso do cidadão em lares e empresas, assim como pelas escolas, por municípios, pelas comunidades locais e por centros de saúde.

A construção de novas capacidades constitui outro desafio fundamental. É necessário expandir o esforço, em matéria educacional, ao campo digital, universalizando o acesso a computadores e à Internet, digitalizando conteúdos e os integrando ao currículo educacional, bem como acelerando a aprendizagem de professores e educadores.

O impulso final da sociedade de informação é a digitalização do setor público, o que melhorará a coordenação interinstitucional e aumentará a eficiência e a transparência das despesas.

O rápido avanço da tecnologia, os processos de desenvolvimento na região e a necessidade de gerir com sabedoria os recursos disponíveis tornam imprescindível a cooperação regional entre países, entre os setores público e privado, entre o governo e a sociedade civil. Daí ser crucial a convergência de esforços regionais que culminarão na reunião governamental do Rio e na proposta regional eLAC 2007.

As condições para este passo histórico são muito favoráveis: existem vontade e consciência crescente nos países, desenvolveram-se condições para o investimento privado que deverão melhorar nos próximos anos, ao mesmo tempo que os governos acumularam mais experiência e capacidade.

Os benefícios potenciais são imensos: avançar no sentido de um comércio regional expedito e flexível baseado em transações eletrônicas e sem papéis; maior coordenação pública em áreas como ciência e tecnologia, educação, saúde, previsão e situações de catástrofes; ação conjugada com o setor privado; ampliação dos espaços de participação da população e das ONGs.

Construir uma sociedade em que todos possam gerar, utilizar e compartilhar informações e conhecimentos, permitindo, assim, que indivíduos, comunidades e nações utilizem todo o seu potencial para promover um desenvolvimento sustentável e melhorar sua qualidade de vida, é um desafio de que ninguém se pode eximir.







Fonte: Aesp/ O Estado de S.Paulo Economia - Tecnologia


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