Por Renato Cruz
Maria é uma jovem brasileira de baixa renda, mãe solteira. Trabalha numa organização não-governamental (ONG) e termina o ensino médio num curso à distância. Ela consulta o itinerário dos ônibus em casa, pela televisão interativa. Estuda e assiste às telenovelas na rua, pelo celular. Maria não existe, mas seu cotidiano será apresentado aos visitantes da IBC, evento de televisão e convergência que acontece de 8 a 13 de setembro em Amsterdã.
"Foram desenvolvidos aplicativos e normas para criar o cenário", explicou o professor Moacyr Martucci, coordenador do projeto na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP). "Nosso compromisso com a Comunidade Européia prevê aproveitar o trabalho para aplicar no Brasil", disse o professor Denis Gabos, também da Poli/USP.
Maria foi criada por brasileiros para ser um dos três cenários de aplicação do programa Instinct, que tem como objetivo levar interatividade e mobilidade para a TV digital européia, cujo sistema é chamado DVB.
Além da Poli, participam do programa no Brasil os Laboratórios Philips, o Instituto Genius, de Manaus, o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) e a Fundação Centros de Referência em Tecnologias Inovadoras (Certi), de Santa Catarina.
Somente um laboratório de Israel e o grupo brasileiro trabalham no projeto Instinct fora da Europa. Além de Maria, os cenários receberam os nomes John Doe, um usuário de telefonia que gosta de TV, desenvolvido por pesquisadores ingleses, e Helga, uma espectadora de TV que usa o celular, imaginada por alemães. Enquanto os cenários John Doe e Helga estão mais próximos da realidade da maioria da Europa, o cenário Maria será importante para integrar os países do Leste.
A Comissão Européia está investindo 50 milhões no projeto, dos quais os pesquisadores brasileiros receberam mais de 3 milhões na primeira fase, que começou ano passado e termina em dezembro deste ano. Na segunda, que começa em 2006, o montante deve ser um pouco maior. O projeto é dividido em três fases. A primeira foi de desenvolvimento da tecnologia, a segunda será de testes e validação e a terceira de implantação. Ou seja, em dois anos a tecnologia desenvolvida no Brasil deve começar a chegar ao mercado europeu.
"O Instinct mostra a viabilidade da exportação de conhecimento no País, caminho que ainda não foi muito explorado", disse Walter Duran, diretor dos Laboratórios Philips no Brasil. O executivo já adotou o modelo de colaboração entre vários centros de pesquisa para o desenvolvimento de projetos da própria Philips no País.
O projeto Instinct acontece no mesmo momento em que se define o Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD). A idéia é que os grupos de pesquisa terminem seu trabalho até o fim do ano e a tecnologia a ser adotada seja anunciada em fevereiro de 2006 se não houver mudança no processo, que se arrasta desde 1994. "Se for escolhido o DVB, a parte de interatividade já estará resolvida, o que representará uma economia razoável", afirmou Duran.
O ministro das Comunicações, Hélio Costa, assumiu a pasta afirmando que o Brasil adotaria uma tecnologia estrangeira, apesar do SBTVD. Depois, disse que desde o começo não se buscou um padrão nacional, mas um sistema. Em entrevista à revista IstoÉ Dinheiro, no começo do mês, disse achar que havia "grande possibilidade de ficarmos com o europeu".
Os concorrentes são o americano ATSC e o japonês ISDB. O japonês já foi defendido pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), dominada pelas Organizações Globo. O ISDB é o mais avançado em recepção móvel e não permite que as emissoras recebam menos de um novo canal inteiro para operar a TV digital, o que é possível com o sistema europeu.
"A próxima reunião com o governo brasileiro está prevista para o próximo mês em Bruxelas", afirmou o português Paulo Lopes, responsável pelos Aspectos Regulatórios Internacionais da Comissão Européia. "Relativamente à TV digital, existe um grande alinhamento de pontos de vista de ambas as partes quanto ao foco que a tecnologia deverá ter como veículo para promover a inclusão digital."
A assessoria das Comunicações, porém, relativizou a afirmação anterior do ministro: "Ainda precisam ser analisadas questões comerciais".
Informação: Aesp/ O Estado de S.Paulo - Economia


