Europeus pedem encontro com Lula sobre TV digital

ELVIRA LOBATO
DA SUCURSAL DO RIO

Os presidentes das subsidiárias de seis indústrias européias fabricantes de equipamentos de telecomunicações enviaram carta ao presidente Lula em que pedem uma audiência para a discussão da TV digital. Lula, segundo a Folha informou na semana passada, já se decidiu pelo padrão japonês ISDB, defendido pelas empresas de radiodifusão, especialmente pela Globo. Esperava-se que a escolha fosse anunciada oficialmente na sexta-feira passada, mas o comitê formado por nove ministérios envolvidos nas negociações pediu mais tempo para examinar as contrapartidas de japoneses e europeus, que têm polarizado a disputa.

Os presidentes das empresas Siemens (alemã), Nokia (finlandesa), Philips (holandesa), Rohde & Schwarz (alemã), Thomson (francesa) e ST Microeletronics (franco-italiana) assinam a carta enviada a Lula. Eles integram a ""Coalizão DVB", criada no final do ano passado em reação ao lobby dos radiodifusores em favor do sistema japonês.

Segundo a Folha apurou, a carta diz que a escolha do ISDB transformará o Brasil em reserva de mercado para as indústrias japonesas, já que nenhum outro país adotou esse padrão até agora, além do Japão, ao passo que 78 países já teriam optado pelo DVB.

Os executivos dizem que a reserva de mercado significará preços maiores para o consumidor brasileiro por falta de competição.

Outro ponto assinalado é o impacto da escolha do padrão japonês sobre os investimentos das indústrias européias de telecomunicações aqui instaladas. Esse argumento passou a ser publicamente colocado a partir do momento em que os ministros pediram mais prazo para analisar as propostas. Os europeus receberam o adiamento como uma vitória parcial e dedicaram-se a criar fatos que justifiquem um novo adiamento. Em conversas informais, os executivos afirmam que o melhor cenário para o DVB seria o adiamento para depois das eleições, pois dificilmente o governo tomaria uma decisão contrária ao interesse das emissoras de TV em ano eleitoral.

Dentro dessa linha, a Siemens declarou que fará investimentos de R$ 100 milhões e empregará cerca de 300 pessoas, em Manaus, se o governo optar pelo DVB.

A ST Microelectronics anunciou a disposição de implantar uma fábrica de semicondutores no Brasil para transferência de tecnologia e fabricação de semicondutores ou displays de cristal líquido. Com isso, os europeus se equipararam aos japoneses, que já haviam manifestado, em carta, a intenção de examinar a implantação de uma fábrica semelhante.

Até agora, nenhuma das partes se comprometeu, efetivamente, com a produção de semicondutores no Brasil. Os dois lados ainda estão no campo das intenções.

O presidente da ST Microelectronics, Ricardo Tortorella, tem audiência hoje com a ministra Dilma Rousseff,da Casa Civil, para detalhar a posição da empresa em relação à fábrica.

Na carta a Lula, os executivos apontam resultados positivos nos testes de funcionamento do DVB realizados no campus da Universidade de São Paulo na semana passada. É uma resposta a críticas feitas publicamente por engenheiros da Globo de que os testes teriam mostrado que o DVB seria inviável para São Paulo.

Japoneses
O empresário Yasutoshi Miyoshi, presidente da Primotec e um dos representantes do grupo japonês, qualificou de ""uma grata surpresa" o anúncio sobre a disposição da ST Microelectronics de vir a instalar uma fábrica no país. Segundo ele, os chips fabricados pela ST podem ser combinados com o sistema ISDB, o que permitiria a produção dos decodificadores (para que as TVs analógicas captem o sinal digital) no Brasil.

Miyoshi é presidente da Primotec, que representa indústrias japonesas, e participou dos encontros dos executivos japoneses com as autoridades locais.
Segundo ele, os japoneses aguardam o pronunciamento oficial e não se posicionam sobre a decisão a ser tomada pelo Brasil, "em respeito à sua soberania".

Para Costa, proposta européia é "cópia"
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O ministro Hélio Costa (Comunicações) afirmou ontem que os governos precisam dar suporte às propostas feitas por empresários nas negociações sobre a escolha do padrão de TV digital que será adotado no Brasil. Segundo Costa, os europeus (padrão DVB) fizeram na última quarta-feira uma "cópia" da proposta que já havia sido feita pelos japoneses (padrão ISDB) há mais tempo.

Japoneses e europeus disputam a escolha do Brasil pelo padrão de TV digital e oferecem, em troca, a instalação no país de uma fábrica de semicondutores. Segundo a Folha informou na semana passada, o governo já optou pelo padrão japonês, preferido das emissoras de TV. A opinião das redes de TV é considerada importante pelo governo em ano eleitoral. Ainda de acordo com a avaliação de Costa, os norte-americanos (padrão ATSC, já praticamente descartado) foram mais "honestos" quando trataram das limitações do seu padrão. "Eu estou mais para acreditar nos honestos do que naqueles que fazem propostas mirabolantes de última hora", disse o ministro.

A proposta de última hora é a dos europeus, que, na semana passada, encaminharam à ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) carta propondo discussão sobre a instalação de uma fábrica de semicondutores no país.

Japão quer tempo sobre fazer fábrica
DA FOLHA ONLINE, EM BRASÍLIA

A decisão de investir em fábrica de semicondutores (chips) no Brasil pode levar de seis meses a um ano, segundo estimativa do representante da indústria japonesa, Yasutoshi Miyoshi, que negocia com o governo contrapartidas para a escolha do sistema japonês de TV digital (ISDB). Ele reafirmou ontem a proposta japonesa de estudar a viabilidade de implantação de uma fábrica no país, mas reconheceu que só após estudos será possível dimensionar a viabilidade do investimento.

"Ninguém é capaz hoje de prometer alguma coisa sem que se faça uma análise profunda", disse outro representante dos japoneses, Murilo Pederneiras, ao comentar que o investimento necessário seria da ordem de bilhões.

Em comunicado à imprensa distribuído ontem, Miyoshi considerou "oportuno" o interesse da empresa européia ST Microeletronics de estabelecer uma unidade industrial no país.

A disposição da empresa franco-italiana, porém, estaria condicionada à escolha da tecnologia européia para a TV digital (DVB), uma estratégia da Coalizão DVB para manter seu padrão na disputa da preferência brasileira. Miyoshi destacou que produtos da ST poderiam ser combinados com tecnologia japonesa para produção de receptores para o sistema ISDB.







Informação: Abert/ Folha de São Paulo -


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