Gustavo Miller
Prevista para chegar no Brasil apenas no final do ano que vem, a TV digital já chegou para o mundo da publicidade há um bom tempo. É o que diz Nizan Guanaes, presidente da agência Africa e um dos publicitários brasileiros mais respeitados em terras tupiniquins e estrangeiras.
?Nunca o mercado publicitário esteve em tamanha ebulição. Nós estamos nos preparando desde já para o que será um nascimento e um dilúvio ao mesmo tempo?, diz.
Como bom baiano que é, não arreda o pé e diz estar pronto para o desafio de criar a tal televisão interativa.
Sua arma principal, além da criatividade, será o marketing indireto. Para quem não sabe o que é isso, vale o filme Náufrago como exemplo. Nele, a empresa de transportes Fedex e uma bola de vôlei da Wilson fazem parte da história, não são meros anunciantes.
Não rola comercial nem nada, apenas o produto, com o nome dos fabricantes, aparece na tela. Com a TV digital, presume-se que o telespectador, assim que olhar aquela pelota, possa clicar com o controle remoto sobre a imagem para receber informações como preço ou onde comprá-la perto de casa.
?Ao invés de apenas ter cabeça, como atualmente, a publicidade terá braços. Vou poder alcançar o telespectador, e ele poderá responder imediatamente?, diz Guanaes. Para atingir esse objetivo, ?o merchandising terá que ser bem mais criativo do que é hoje?.
Essa aposta já é algo que acontece no meio publicitário atualmente, comenta, pois nunca o telespectador teve tantas opções para mudar de canal e pular os comerciais.
Por isso, bolar uma propaganda, para a era da TV digital, que prenda o cara ali na frente da telinha será ainda mais desafiador. ?A interatividade permitirá que eu possa conversar diretamente com você e busque fazer a venda ali mesmo. São possibilidades infinitas que só com a experiência poderei saber como usar.?
Guanaes tem consciência de que essa transição do analógico para o digital irá demorar um bocado, assim como a revolução que ela causará. ?As grandes coisas do mundo não chegam se anunciando assim, e o futuro também é muito complicado de entender. Tudo o que você consegue compreender plenamente está obsoleto. A TV digital é isso?, explica.
Aliás, não entender direito uma tecnologia mas apostar nela como o futuro não é uma novidade na carreira do publicitário. Enquanto a internet ainda engatinhava, ele foi um dos sócios fundadores da Agência Click, empresa de publicidade que anuncia apenas na web.
Já um pouco depois da bolha da internet, ele criou o IG, portal pioneiro ao oferecer acesso à internet grátis.
O IG nasceu em 2000, justamente numa época em que Guanaes esteve longe da publicidade. Após vender sua parte da agência DM9 para a DDB, ele teve que ficar dois anos fora do mundo publicitário.
Gosta de dizer que, com o dinheiro que tinha, poderia viajar à vontade, mas preferiu investir. ?O IG foi um grande aprendizado e, se hoje invisto tanto na rede e encaro o futuro como faço, é por ele?. Após o enclausuramento,voltou a atuar na publicidade e criou a Africa, em 2002.
Pessoas próximas a Guanaes dizem que ele não é uma pessoa hi-tech: é a favor das novas mídias e sabe criar a partir delas e para elas, mas não é bom de mexer em equipamentos tecnológicos.
Outra característica sua é ser avesso a entrevistas e fotografias. Para entrevistá-lo, o repórter do Link teve de correr, literalmente, atrás do publicitário ao final de um seminário do qual ele foi a estrela. Mas, para fazer a foto, não houve jeito: alegando falta de tempo, não topou de jeito nenhum (o jeito foi apelar para a brincadeira ao lado).
Colecionador de inúmeros prêmios internacionais, inclusive diversos Leões de Ouro, Nizan decidiu, ao criar a Africa, não mais inscrever os trabalhos da agência em premiações.
Mas, para 2007, abriu uma exceção: autorizou seu time de criadores a inscrever trabalhos apenas na categoria Internet. ?Isso não quer dizer que eu esteja interessado somente na internet. É que a internet vai virar tudo: filme, banner, outdoor.?
Informação: Abert/ O Estado de S.Paulo - Link - Publicidade

