As empresas brasileiras de software se preparam para competir em um novo mercado: aplicativos e middleware para TV digital. Nas companhias, já existem equipes desenvolvendo e testando os programas, enquanto os empresários reivindicam junto ao governo demandas que julgam essenciais para o desenvolvimento de seus negócios: a presença de interatividade na TV digital brasileira já em sua primeira fase, pré-condição para a explosão da demanda por aplicativos; o financiamento do BNDES e Finep para pesquisa e desenvolvimento e a ratificação do padrão Ginga para o middleware a ser utilizado no Brasil.
Interatividade
Os aplicativos são os programas que permitirão adicionar à TV uma série de funcionalidades, semelhantes àquelas oferecidas pelos websites. Com a interatividade, será possível comprar o produto que aparece na propaganda, agendar consultas em hospitais, solicitar documentos junto a órgãos governamentais e uma série de atividades que hoje já são possíveis pela Internet.
É neste mercado potencialmente gigantesco que as empresas estão de olho. “O dilema para a indústria de software captar as oportunidades está na velocidade da implementação da interatividade pelos radiodifusores”, explica Laércio Cosentino, do grupo Totvs e representante do setor junto ao Fórum Brasileiro de TV Digital.
A questão também preocupa Salustiano Fagundes, diretor presidente da Hirix: “Não podemos deixar de trabalhar desde o primeiro momento com a interatividade. Se não o fizermos desde já, talvez percamos a oportunidade e o timing de competir no mercado internacional”.
Segundo ele, com o Ginga, as aplicações construídas para o mercado brasileiro também serão compatíveis com o middleware na Europa, no Japão e nos Estados Unidos. Se o Mercosul adotar o mesmo padrão de TV digital do Brasil, as empresas também terão estes mercados para atuarem.
Ricardo Kurtz, presidente da Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação, Software e Internet (Assespro), complementa: “se não garantirmos a interatividade, cai grande parte do mercado para softwares”.
Compartilhando da mesma posição, Carlos Alberto Senna de Lima, diretor comercial da International Syst, argumenta que o setor de software tem de ser encarado como estratégico pelo país: “A TV digital é uma oportunidade para empresas brasileiras se desenvolverem e trazerem divisas”.
O middleware é um software que serve como plataforma de diálogo, pois aglutina uma série de protocolos – de identificação, autorização, autenticação, entre outros — para que a transmissão, os aplicativos e o set top box (aparelho responsável por converter o sinal da TV digital para aparelhos analógicos) possam conversar entre si. O padrão Ginga foi desenvolvido por universidades brasileiras e é em cima dele que as empresas desenvolvem o middleware para comercialização.
Até o final deste ano, serão feitos os testes finais do Ginga e as transmissões iniciais. Segundo o DCI apurou, ele deve ser ratificado como o padrão a ser utilizado no Brasil. “A decisão técnica está tomada pelo Fórum. Falta o governo tornar isto público através de um decreto. Aguardamos esta definição o quanto antes”, afirma Fagundes.
Financiamento
Outra reivindicação do setor é obtenção de linhas especiais de crédito junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e à Finep, órgão do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). “É necessário que haja financiamento para pesquisa e desenvolvimento.
O Brasil precisa passar a ter capacitação para desenvolver software embarcado”, afirma David Britto, diretor presidente da Quality.
Para Senna de Lima, o MCT deveria permitir uma parceria entre a indústria de hardware e software para que verbas de pesquisa também fossem direcionadas ao setor.
“Os investimentos são pesados, precisamos de financiamento de baixo custo para fazer as adaptações”, afirma.
Competir neste novo mercado exigirá de fato muitos investimentos, devido à originalidade dos produtos que serão criados.
“A indústria de software terá que aprender a desenvolver modelos e softwares padrões ligados a merchandising, marketing e vendas, a educação e a novas demandas surgidas pelo novo momento”, explica Cosentino.
O mercado de software para TV digital é novo no mundo inteiro e existem muitos poucos dados a respeito. Os fabricantes nacionais não dispõem de estudos e projeções que indiquem o tamanho e a proporção do mercado que se formará.
Independente disso, o consenso é de que há um potencial imenso a ser explorado. “Pode acontecer o que aconteceu com telefonia celular: um crescimento absurdo”, afirma Britto.
FONTE: ABERT/ DCI/ PRIMEIRA PÁGINA/ TV DIGITAL

