Eliane Sobral De São Paulo
Quando as operadoras de telefonia celular começaram a oferecer boletins noticiosos, previsão do tempo e informações sobre o trânsito via telefone móvel, as emissoras de televisão suspeitaram que estava nascendo um perigoso concorrente. Passado esse primeiro momento, os dois lados se aproximaram e começaram a trabalhar em conjunto e hoje tentam desenhar um novo modelo de negócio com a oferta de conteúdo, vídeos e até programas inteiros ao vivo, via telefone móvel.
"Estamos em fase de teste. É algo completamente novo tanto para nós, quanto para as operadoras e para o próprio cliente", diz o diretor de marketing da Globo.com, Frederico Monteiro, que integra o grupo de estudos formado há cerca de um ano por executivos de todas as empresas das Organizações Globo com o objetivo de estudar as possibilidades de oferta de conteúdo para o celular.
E a fase é mesmo de testes. Dos 82,2 milhões de telefones celulares habilitados no Brasil (dados de novembro), o número de aparelhos com tecnologia para recepção de vídeos e programas em tempo real ainda é pequeno - algo próximo a 2 milhões de aparelhos - e não há sequer muitas opções de modelo.
Longe de ser um limitador, a penetração ainda incipiente da tecnologia vem dando o tempo que as duas pontas do negócio precisam para desenvolver produtos, formatos, resolver problemas técnicos e sentir a demanda.
Nas Organizações Globo, diz Monteiro, o desafio é levar para a telinha do celular o mesmo padrão de qualidade que caracteriza as produções da emissora. "Exibir o vídeo de um gol, por exemplo, é uma tarefa muito mais complexa no celular do que na TV. O material tem de ter, no máximo, 30 segundos". O trabalho de adequação envolve também aproximar, ao máximo, o usuário do objeto filmado, para evitar a dispersão da imagem na tela do celular, e alterar o som pois " o áudio do celular não é o ideal para programação de TV".
A Globo selecionou apenas alguns programas para testar o formato em telefonia celular - o musical Fama, o Big Brother, futebol e imagens de Carnaval. "Agora estamos estudando como contar uma história no celular. Pode ser uma novelinha própria, um minisseriado. Não sabemos ainda quando teremos esse produto, mas ele virá".
Por enquanto, a programação disponível para celular no Brasil é a mesma que a exibida nas telas de cinema ou nos aparelhos de televisão. Mas a criação de programas exclusivos para a nova mídia não está descartada. "Estamos estudando sim, mas é algo que demandará tempo. Precisamos ver quanto será necessário investir e a viabilidade econômica do novo serviço", afirma o diretor de comunicação e interatividade da TV Bandeirantes, Milton Turolla.
O diretor de novos negócios do SBT, Rodrigo Marti, acredita que a maior demanda no mercado brasileiro será por serviços noticiosos. Mas a criação de conteúdo específico para telefone celular não está descartada. "Quanto à programação ao vivo e em tempo real, nossa perspectiva é de que seja viável apenas quando o modelo de TV digital estiver em operação. Porque aí, os aparelhos, a exemplo do que já ocorre no Japão, estarão habilitados para captar o sinal de TV, o que vai agilizar a recepção das imagens e também melhorar a qualidade do material recebido".
A Vivo começou seus testes em julho, quando foi lançado o Vivo Play 3G. "É a tecnologia que permite o envio de vídeos pelo celular. Algo como você por banda larga no seu telefone", explica o gerente de conteúdos da empresa, André Mafra. Desde então, a Vivo coloca à disposição de seus assinantes uma versão reduzida do seriado "24 Horas", da Fox.
Na versão para celular, a série é de "24 Minutos" e a operadora oferece um capítulo de um minuto por semana aos assinantes, que têem a opção de assistir o filminho na hora ou armazenar e ver quando quiser. "Entre julho e dezembro tivemos mais de 400 mil acessos", afirma Mafra.
Por enquanto, diz ele, a Vivo não cobra nada pelo serviço pois o número de celulares com tecnologia adequada para recebê-lo é limitado e a operadora aproveita para testar a reação do consumidor. "Ela tem sido muito positiva. Acompanhamos de perto o que está ocorrendo em alguns países europeus pois acreditamos que seja uma área com grande potencial".
Os executivos da Claro também estão otimistas com o a função midiática do telefone celular. Atualmente a empresa oferece vídeos, também em caráter experimental, em dois formatos: programas como documentários, traillers de filmes ou boletins de notícias que o cliente recebe em seu aparelho e pode arquivar ou assistir na hora em que o conteúdo chega. A outra opção é o conteúdo ao vivo e em tempo real - tecnologia batizada de "streaming".
Segundo André Andrade, gerente de serviços de valor agregado da Claro, de setembro de 2004 a outubro do ano passado, foram realizados 1,2 milhão de downloads de vídeos. A operadora não informa, porém, quantos acessos recebeu da programação ao vivo. "O volume ainda é muito baixo, até pela limitação tecnológica dos aparelhos".
Alberto Blanco, diretor de marketing do Grupo Telemar, dona da operadora Oi, observa que mais de 100 novos vídeos foram oferecidos aos usuários ao longo de 2005 e que a empresa registrou 2,5 milhões de downloads no ano passado. "Essa é uma das mais promissoras fontes de receita para as operadoras. As pessoas não vão falar mais do que falam, mas podem usar mais o celular como fonte de entretenimento."
O potencial da TV móvel é vasto, mas há incertezas sobre sua aplicação
The Economist
"Este é um momento realmente excitante - uma nova era está começando", diz Peter Bazalgette, o principal diretor de criação da Endemol, a rede de televisão que está por trás do "Big Brother" e outros programas populares. Ele se refere ao grande interesse que está surgindo pela TV móvel, uma indústria nascente que fica na intersecção das telecomunicações e da mídia e que oferece oportunidades aos fabricantes de aparelhos, produtores de conteúdo e operadores de telefonia móvel. E ele não está sozinho nesse entusiasmo.
Muitas operadoras de telefonia móvel já oferecem uma seleção de canais de TV ou programas individuais, que são transmitidos por suas redes de terceira geração (3G). Na Coréia do Sul, a televisão também está sendo enviada para telefones celulares via satélite e redes terrestres de transmissão, o que é muito mais eficiente do que a transmissão de vídeo via redes móveis de telefonia; transmissões parecidas terão início no Japão em abril. Na Europa, o braço italiano da 3, uma operadora de telefonia móvel, adquiriu o Canale 7 com vistas ao lançamento de transmissões de televisão móvel na Itália no segundo semestre de 2006. Redes de TV móvel parecidas também serão construídas na Finlândia e Estados Unidos e estão sendo testadas em muitos outros países.
Enquanto isso, a Apple Computer, que lançou uma versão do seu iPod com capacidade para vídeo, está firmando acordos com redes de televisão para ampliar a linha de programas que podem ser adquiridos para serem vistos em seu aparelho, incluindo as séries de TV americanas. A TiVo, fabricante gravador de vídeo pessoal (PVR), pretende habilitar os assinantes a baixarem programas gravados para iPods e outros aparelhos portáteis, para serem vistos em movimento. E a TV móvel foi um dos grandes destaques da maior feira de tecnologia do mundo, a Consumer Electronics Show, realizada em Las Vegas, nos EUA, esta semana.
No entanto, apesar de toda essa atividade, as perspectivas para a TV móvel não estão bem definidas. Para começar, ninguém realmente sabe se os consumidores vão querer pagar por ela, embora pesquisas sugiram que eles gostam da idéia. A consultoria Informa afirma que haverá 125 milhões de usuários de televisão móvel até 2010. Mas muitas outras tecnologias móveis criaram grandes esperanças que acabaram não se concretizando. E mesmo que as pessoas estejam dispostas a usar o serviço, há incertezas adicionais em três áreas: tecnologia, modelos de negócios e conteúdo.
No momento, a televisão móvel está sendo canalizada principalmente pelas redes 3G. Mas transmitir um conjunto individual de dados para cada um dos telespectadores é algo ineficiente e será insustentável no longo prazo se a TV móvel decolar. Então, o consenso geral é de que a transmissão via 3G é um prelúdio para a construção de redes de televisão móvel dedicadas, que irão transmitir sinais de TV digital em freqüências inteiramente diferentes das usadas para voz e dados. Há três padrões principais: DVB-H, preferido pela Europa; DMB, que está sendo adotado na Coréia do Sul e Japão; e MediaFLO, que está sendo lançado nos Estados Unidos. Assistir TV usando qualquer uma dessas tecnologias exige, é claro, o celular que possa receber os sinais. Embora vários modelos novos tenham sido revelados em Las Vegas esta semana, nenhum desses aparelhos ainda está disponível na Europa e nos EUA, e poucos na Ásia.
Por outro lado, assistir programas de TV baixados em um iPod ou outro vídeo player portátil já é possível hoje. E ao contrário de um programa transmitido pela tecnologia 3G ou por uma rede de TV móvel dedicada, os programas armazenados em um iPod podem ser assistidos em um trem subterrâneo ou em regiões em que o sinal das redes de TV é fraco. Isso sugere que alguns programas (como os dramas) são mais adequados ao modelo que envolve o download, enquanto outros (como o noticiário, programas de esportes e reality shows) se encaixam melhor na transmissão em tempo real.
Ninguém sabe se os consumidores vão querer pagar pelo serviço, embora pesquisas digam que eles gostam da idéia
Assim como há várias tecnologias de televisão móvel competindo, há muitos modelos de negócios possíveis. As operadoras de telefonia móvel poderão optar pela construção de suas próprias redes de transmissão de TV móvel; ou poderão formar um consórcio e construir uma rede que será compartilhada; ou as redes de TV existentes poderão construir essas redes. Os canais serão abertos ou para assinantes. O resultado dependerá do ambiente normativo e da disponibilidade de espectro de transmissão de cada país.
A grande dúvida é se as redes transmissoras e as operadoras de telefonia móvel chegarão a um acordo sobre como dividir os espólios, assumindo que haverá algum. As redes de TV possuem o conteúdo, mas as operadoras geralmente controlam os aparelhos de mão, e elas nem sempre se bicam.
Depois, há a questão de quem vai bancar a produção de conteúdo da TV móvel: as redes de TV, as operadoras de telefonia móvel ou os anunciantes? Mais uma vez, a resposta provavelmente é "todos eles". A nova divisão de TV móvel da Endemol está discutindo com operadoras e redes de TV o comissionamento dos novos programas, afirma Bazalgette.
Mas as operadoras de telefonia móvel são novatas no mundo da televisão. As grandes redes de TV têm a vantagem de poderem usar a TV tradicional para promover o conteúdo da TV móvel. Mas para as operadoras de telefonia móvel, construir franquias apenas de TV móvel não será fácil. Elas vão ter de resolver como lidar com os anunciantes.
Há ainda a questão complicada do conteúdo. No momento, a maior parte do conteúdo de TV móvel é formado por retransmissões dos canais tradicionais, embora em alguns casos programas estejam sendo reeditados para a transmissão móvel. Mas o meio abre possibilidades novas, como as transmissões ao vivo.
O potencial da TV móvel, em resumo, é vasto - assim como o grau de incerteza sobre como ela deverá ser colocada em prática. A maioria dos observadores não esperam uma adoção disseminada da TV móvel, se ela vier mesmo, até 2008 pelo menos, uma vez que a criação do ecossistema tecnológico exigido, das parcerias e do conteúdo vai levar algum tempo. Fique sintonizado.
Informação: Abert/ Valor Econômico - Empresas & Tecnologia - TV Digital
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