Os senadores da Comissão de Educação, que participaram, nesta terça-feira (20/05) de audiência pública sobre a cobrança de direitos autorais foram unânimes: a atual legislação deve ser rapidamente revista. Durante a reunião, foram feitas duras críticas à atuação do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).
A insatisfação é tamanha, que o senador Gerson Camata (PMDB/ES) sugeriu ao professor Marcos Alberto Sant"Anna Bitelli, presente à audiência, que elaborasse para a comissão uma proposta de modificação da atual legislação. A sugestão foi prontamente aceita pelo senador Flávio Arns (PT-PR), que presidia a reunião. Para ele, este seria um "desdobramento prático" do debate realizado. O senador Papaléo Paes (PSDB-AP) também disse ser necessária uma atualização da lei, para torná-la mais justa.
Professor da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo e especialista nas áreas de propriedade intelectual, audiovisual e comunicação social, Bitelli definiu o conflito de interesses resultante da aplicação da atual legislação como um "choque de dois mundos". Segundo ele, “a lei foi feita para a música, mas o mundo atual seria dominado pelo audiovisual. Quando se estabeleceu o percentual de 2,5% para a cobrança dos direitos, tinha-se em mente a atividade das emissoras de rádio”.
No início da audiência, que foi aberta pelo senador Paulo Paim (PT-RS), o diretor da Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), José de Araújo Novaes Neto, classificou como uma "grande distorção" o fato de os direitos autorais sobre músicas estrangeiras serem sete vezes maiores do que os pagos por músicas brasileiras, apesar do "grande potencial de exportação" do produto nacional.
O direito autoral é "sagrado", na opinião do presidente executivo da Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA), Alexandre Annenberg. A seu ver, porém, não se pode estabelecer um único percentual - de 2,5%, no caso - sobre o faturamento global das empresas do setor, uma vez que muitas atividades das televisões por assinatura não teriam nada a ver com direitos autorais.
O presidente da Associação Paulista de Cineastas, Ícaro Martins, considerou "nefasta e predatória" a atuação do Ecad e fez um apelo aos senadores pela revisão da atual legislação. Para ele, ou se muda a lei, ou os maiores prejudicados permanecerão sendo os diretores e roteiristas de cinema, que "dificilmente receberão alguma coisa" caso sejam mantidas as regras atuais de pagamento de direitos autorais.
A atuação do Ecad foi defendida pelo vice-presidente da Associação Brasileira de Música Independente, Francisco João Moreirão de Magalhães, para quem "o direito autoral é a trincheira definitiva contra a substituição da cultura nacional por uma subcultura norte-americana". Moreirão acusou as grandes gravadoras de serem as fornecedoras de 80% das cópias de CDs que abastecem o mercado pirata - acusação que levou Flávio Arns a anunciar o envio de uma denúncia à Polícia Federal, com a aprovação da comissão.
Último a falar, o coordenador-geral de Direito Autoral da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Marcos Alves de Souza, disse que o governo não tem atualmente como avaliar se os valores cobrados pelo Ecad são justos e bem distribuídos. - A supervisão estatal seria um bom caminho para se estabelecerem valores mais justos - afirmou Souza, ao defender a adoção de mudanças na atual legislação.
FONTE: AGÊNCIA SENADO

