A imprensa deprimida

A mídia de qualidade dos Estados Unidos atravessa hoje o vale de lágrimas. Nossa autoflagelação, angústia e narcisismo ameaçam nossa missão de atuar como contrapeso do poder governamental.

Ouçam os lamentos. Os bloggers estão chegando! Aqueles que brandem a Bíblia amaldiçoam nossa desumanidade secular! Os juízes encanadores estão tampando nossos vazamentos! As notícias se tornam furtivamente tendenciosas, pois o preconceito mostra suas garras!

Animem-se. Apesar dos recentes lapsos na CBS e infortúnios anteriores no New York Times e USA Today, eis porque o grande jornalismo tem futuro:

1. Sobre o desafio dos bloggers: a plataforma - mídia impressa, TV, internet, telepatia, o que for - mudará, mas a fome do público de informações confiáveis crescerá. Os blogs vão competir com as colunas de opinião pelas "opiniões úteis" e os melhores emergirão para fornecer análises sérias e informações novas, algum dia prosperando com anúncios e assinaturas. Nos eventos nacionais ou globais, no entanto, o consumidor de notícias precisa de repórteres treinados presentes na cena para transmitir os fatos e de editores dignos de confiança para julgar sua importância.

2. Sobre o ressentimento de vozes culturais e religiosas com o elitismo da mídia: eles não são loucos. Suas opiniões sobre as células-tronco e o casamento entre pessoas do mesmo sexo são notícia, e não um ataque à separação entre Igreja e Estado. Mas os seculares sensatos da grande mídia não precisam sentir-se na obrigação de serem justos com a religião. Tudo bem dizer "feliz Natal" no fim de um noticiário sem se preocupar em fazer saudações semelhantes para o Ramadã, o Chanukah, e todo o resto.

3. Sobre os juízes que mandam prender jornalistas por se recusarem a revelar suas fontes: a grande mídia tem bons motivos para se revoltar por ser atacada injustamente e nenhum para ser deprimida e dócil por medo de parecer egoísta. Se a imprensa não pode prometer às fontes que elas não serão traídas, a cobertura deixará de ser resoluta e desimpedida; a corrupção não será noticiada.

Mas por que a grande mídia precisa estar sozinha na resistência a este assalto judicial contra o direito das pessoas de saber dos crimes? Onde está a profissão legal, que deveria não só enxergar perigo num Judiciário sem freios, mas também saber que é a próxima na fila para perder grande parte de seu privilégio de confidencialidade com os clientes? E onde estão os religiosos, que podem ser acusados de contumácia por não testemunhar sobre penitentes envolvidos em peculato?

4. Sobre a sensação da grande mídia de que o presidente Bush não dá a mínima para ela: pior para ele do que para nós. Ele pode fazer um segundo discurso de posse empolgante, mas ainda não parecer disposto a responder a perguntas. A razão: Bush realiza entrevistas coletivas trimestrais, e não mensais, como é tradicional. Esta falta de treino lhe custa familiaridade com as questões. Como mostraram os debates, Bush melhora com a prática.

5. Sobre a suspeita disseminada de tendência política na cobertura noticiosa: a boa notícia é que a má notícia é mais notícia que a boa. Mesmo quando tenta ser "justa e imparcial", a mídia provavelmente irrita, e não agrada, o partido no poder. Isso porque o governo limpo precisa de um adversário bisbilhoteiro, não de uma líder de torcida; os que estão fora do poder precisam da ajuda da imprensa para fazer os que estão dentro prestar contas.

Hoje, a tendência da mídia é inegavelmente liberal. Isto é natural quando os conservadores estão no poder. Há cinco anos, era o contrária. Quando as futuras eleições se aproximarem, essa inclinação precisará desaparecer do noticiário, para que os eleitores a determinem.

Alguns jornalistas da grande mídia falharam na imparcialidade requerida na eleição de 2004 e deveriam agradecer pelo duro ataque corretivo de outras mídias, bloggers e direitistas íntegros. Saiam deste vale, aconselha o sábio: o jornalismo digno do Pulitzer está logo ali.

Informação: Simdirádio/Associação de Emissoras de Rádio e Televisão de São (Paulo William Safire do The New York Times)




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