A TV que um dia estimulou a migração em massa de lugarejos nordestinos para metrópoles do sudeste hoje difunde imagens que afugentam.
Nos anos 70 e 80, São Paulo e Rio de Janeiro, que até hoje produzem quase toda a programação, apareciam como centros do "progresso".
O avanço das antigas antenas -as famosas "espinhas de peixe", que o memorável filme "Bye Bye Brasil" (1979), de Cacá Diegues, mostrou- sinalizava a penetração crescente de imagens das oportunidades oferecidas nas metrópoles afluentes.
O "sul maravilha", além de trabalho, acenava com uma certa liberdade, de escapulir da rígida autoridade paterna, de sair da órbita de influência exclusiva do coronel. A TV oferecia uma janela para um mundo diferente, onde seria possível mudar de vida.
Mesmo que nem todos possuíssem um aparelho, as TVs coletivas, nas praças públicas, tornavam possível o acesso às imagens de um mundo fascinante -e assustador- onde era possível se perder na multidão.
Hoje as antenas parabólicas substituíram as espinhas de peixe. Os aparelhos coletivos permanecem instalados em verdadeiros altares nas praças públicas das pequenas cidades nordestinas. Mas cada casebre, mesmo que precário, possui um desses discos, sugestivamente voltados para o céu.
A TV permite acompanhar a trajetória bem-sucedida dos que, como o presidente Lula, a personagem Maria do Carmo ("Senhora do Destino") e muitos outros, vieram na boléia do caminhão.
Mas essa via está interrompida. No lugar dos telejornais locais, espectadores em bucólicas praias nordestinas assistem à programação gerada em São Paulo.
A metrópole que aparece no "Cidade Alerta" (Record) ou no "SPTV" (Globo) é violenta e caótica. Por contraste com a barbárie, as pessoas valorizam seus próprios lugares.
Esther Hamburger é antropóloga e professora da ECA-USP
Informação: Sulrádio/Folha de São Paulo - Ilustrada

