Erica Ribeiro
Enviada especial
RIO DAS FLORES e PIRAÍ. Com apenas oito mil habitantes, Rio das Flores, município da região do Médio Paraíba, passou a ser esta semana a segunda cidade digital do Estado do Rio, depois de Piraí, pioneira no projeto Cidade Digital, um programa que oferece aos moradores acesso gratuito à internet e à informação. Outras dez cidades já estão em fase de implantação do projeto, entre elas Angra dos Reis, Nova Friburgo e Quissamã. A próxima Cidade Digital será Mangaratiba, com inauguração prevista para 20 de setembro.
O acesso à internet com o uso da tecnologia wireless (sem fio), até então distante da realidade, e mais ainda do vocabulário das pessoas simples que vivem na pequena Rio das Flores, aos poucos começa a deixar de ser tão espantoso. A instalação de terminais de computador, torres, fios e cabos mudou a rotina da cidade, que já viveu seus tempos de glória no ciclo do café e hoje tem como principal fonte de emprego e renda o turismo rural.
— Toda a iniciativa de inclusão digital até então tinha sido feita pontualmente. Nós pensamos na idéia de oferecer acesso digital de forma gratuita e mais ampla.
O trabalho iniciado em Piraí, em 2004, começa a dar frutos. Assim como qualquer cidadão tem direito à infra-estrutura que garanta água e energia, a informação também deve ser um direito — defende Franklin Coelho, professor da UFF e coordenador do projeto Cidade Digital.
A implantação da tecnologia híbrida — que utiliza cabo e rádio para acesso à internet em banda larga — custou R$ 300 mil e teve o apoio da prefeitura local, dos governos estadual e federal, além de uma empresa da região, a Montreal Engenharia. O governo federal cedeu a primeira unidade digital itinerante, um microônibus com oito terminais de computador, que vai percorrer os distritos mais distantes do município oferecendo cursos e a possibilidade de acesso gratuito à internet.
Em Rio das Flores, os moradores já têm à disposição um telecentro, instalado na Agência de Desenvolvimento Municipal, com dez terminais, além de três quiosques, um no Centro de Informações Turísticas, outro no Centro Cultural da cidade e, em breve, um na rodoviária. Também foi instalado um centro de capacitação no bairro Sossego, área industrial onde estão instaladas confecções.
Os alunos aprenderão corte e costura industrial e terão uma hora de aula de informática.
Recursos do FUST ajudariam a ampliar o projeto
Três escolas municipais já estão com os laboratórios de capacitação em funcionamento. Na Escola Municipal Manoel Duarte, no centro, os 12 terminais de computador encantam os pequenos alunos, ansiosos por descobrir os segredos da máquina.
— As secretarias da prefeitura também foram interligadas, o que facilita a comunicação e dá mais transparência aos processos, que poderão ser acompanhados pela população — afirma Franklin Coelho.
Para o prefeito de Rio das Flores, Vicente Guedes, o projeto é uma oportunidade única para a população, com a oferta de melhores condições de emprego e renda no futuro.
Para Franklin Coelho, se os recursos do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust) não estivessem contingenciados, o projeto já teria chegado a várias cidades do país.
Inclusão na adversidade
PIRAÍ. A transformação de Piraí em cidade digital teve seus primeiros passos na década de 90, quando a cidade sofreu o impacto econômico da privatização da Light. Cerca de 1.200 pessoas foram demitidas e o distrito onde moravam praticamente deixou de existir.
A volta por cima aconteceu quatro anos depois, com iniciativas de desenvolvimento da prefeitura local que devolveram os postos de trabalho.
O programa foi contemplado com o prêmio Gestão Pública e Cidadania da Fundação Ford e FGV-São Paulo, e abriu uma linha de financiamento a fundo perdido no BNDES, o que possibilitou a criação do projeto de inclusão digital.
Assim nasceu o projeto Piraí Digital, com a promessa de oferta democrática a informação e educação a todos os moradores da cidade, com o uso de tecnologia sem fio. Inaugurada em fevereiro de 2004, a cidade digital de Piraí tem três telecentros e sete quiosques espalhados pela cidade. Das 19 escolas municipais, 12 estão com laboratórios digitais prontos e em uso, inclusive na área rural.
— A vida da população mudou. Ninguém mais imagina viver sem essa ferramenta para trabalhar e estudar. O projeto abriu mais espaço no mercado de trabalho e as empresas da região absorvem a mão-de-obra local — afirma Leonardo Rosa, um dos coordenadores de projeto de capacitação em Piraí, que hoje vive e trabalha na cidade. ( E.R. )
Iniciativa brasileira é reconhecida no mundo
PIRAÍ. O trabalho desenvolvido na cidade de Piraí colocou o Brasil entre os países com os melhores projetos de inclusão digital do mundo. Segundo Maria Helena Cautiero Horta Jardim, coordenadora Executiva e Educacional do projeto Cidade Digital, a chancela da Unesco, no ano passado, foi um importante reconhecimento.
— Conquistamos a chancela da Unesco pelo mérito na promoção de ações de grande relevância em políticas públicas de inclusão digital — diz ela.
O projeto recebeu em junho de 2004 o prêmio de melhor cidade digital de pequeno porte pelo Instituto de Conectividade das Américas e pela Associação Hispano-Americana das Empresas de Telecomunicações. Também está entre os sete melhores do mundo, de acordo com o Top Seven Intelligent Communities, de Nova York, junto com Mitaka (Japão), Cingapura (Cingapura) Toronto (Canadá), Taijin (China), Sunderland (Reino Unido) e Issy De Moulineaux (França). Em novembro, o projeto de Piraí vai representar o Brasil no 2 Encontro Mundial da Sociedade de Informação, na Tunísia.
( E.R. )
Informação: Aesp/ O Globo Economia


