Reativado o selo Rádio MEC

Beatriz Coelho Silva

Com o lançamento do disco EmCantos Gerais, com Márcio Lott regravando canções de mineiros ou sobre Minas Gerais, o selo Rádio MEC, da emissora estatal da Rede Brasil volta à ativa, depois de quase dois anos de interrupção. A Petrobrás garante cinco títulos, com um investimento de R$ 488 mil, pela Lei Rouanet, mas os planos são para muito mais, aproveitando também o acervo da emissora e propostas que vierem de artistas atuais, desde que se enquadrem no perfil da Rádio MEC. "Queremos difundir a música brasileira de qualidade em todas as suas versões", diz o diretor-geral da emissora, Orlando Guilhon. "Há centenas de gravações feitas em nossos estúdios, com Villa-Lobos e Radamés Gnatalli, a Rosinha de Valença e Jacob do Bandolim. São históricas e já começamos a edição de programas como o da pianista Helza Camêu, tocando músicas próprias, mas há muito material inédito."

Os discos patrocinados devem ser lançados até o fim do ano e distribuídos pelo selo Rob Digital. Este mês virá o da flautista Odete Ernst Dias tocando um repertório composto para seu instrumento por Debussy, Villa-Lobos e Fourreaux, e outras feitas especialmente para ela por Hermeto Pascoal, Cláudio Santoro, Ronaldo Miranda e outros. "Este seria o primeiro da série, pois a Odete é uma das maiores instrumentistas do País e tem poucas gravações", comenta o gerente da emissora, Xico Teixeira. "Mas tivemos dificuldade de conseguir algumas autorizações para gravação, pois há músicas compostas para ela há mais de 30 anos e foi difícil achar os herdeiros dos compositores."

O terceiro disco virá em outubro, com duas missas de compositores brasileiros, Henrique Oswald e Alberto Nepomuceno, gravadas pelo grupo vocal Calíope. Até o fim do ano saem Negritude, com o violonista Cláudio Jorge e o compositor Luiz Carlos da Vila, com músicas relativas à questão negra (como o samba-enredo Kizomba, a Festa da Raça, que deu o título à Unidos de Vila Isabel em 1988) e o disco temático sobre o Nordeste com o cantor Eudes Fraga.

"Ao contrário dos 11 discos do selo MEC de 2002 e 2003, que eram autorais (João Carlos Assis Brasil, Nelson Sargento, Rabo de Lagartixa e dois de Hermeto, entre outros), optamos por criar repertório a partir de um conceito", explica o gerente da emissora, Xico Teixeira. "O que não impede que instrumentistas, cantores e compositores nos proponham projetos autorais, pois estamos abertos a toda música de boa qualidade."

No primeiro caso está EmCantos Gerais, que tem um pé nos anos 70, quando os arranjos privilegiavam melodias e harmonias, em lugar do ritmo, como hoje. O cantor Márcio Lott, que já participou de grupos vocais como o Be Happy e fez backing vocal para estrelas como Roberto Carlos, tem um timbre que se casa perfeitamente com canções como Desenredo (Danilo Caymmi e Paulo César Pinheiro), Mais Que a Paixão (Egberto Gismonti e João Carlos Pádua), ou Pai Grande (de Milton Nascimento), as três que abrem o CD que, no entanto, não tem um tom só saudosista. "É um repertório que, se não foi composto por mineiros, lembra o Estado", garante Teixeira.

Entre os projetos que o selo abrigou está Retratos do Brasil, com a Orquestra de Câmara Rio Strings, dirigida por Davi Chew e regida por Ernani Aguiar. O disco tem composições de Guerra Peixe, Radamés Gnatalli, Sérgio di Sabato e do próprio Aguiar, inspirada nas cantigas infantis brasileiras. Dificilmente chamaria atenção das emissoras de rádio e televisão, embora ouvi-lo seja fácil e agradável mesmo para quem não está habituado à música de câmara erudita. "Passamos estes dois anos recuperando a emissora, que tinha problemas estruturais, inclusive com seu transmissor, que estava obsoleto", explica Teixeira. "Agora com a casa arrumada, podemos alçar outros vôos."






Informação: Aesp/ O Estado de S.Paulo Caderno 2


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