André Machado
A televisão digital está realmente em todas as bocas. É debatido desde o sistema para a sala de estar até a tecnologia que deve ser empregada para a televisão de alta qualidade nos telefones celulares e handhelds, com novas sopas de letras sendo forjadas a cada round de discussão.
No Intel Developers Forum, que aconteceu há pouco em São Paulo, estava à mostra um protótipo parcial da solução que a Intel desenvolve em parceria com a USP. O aparelho passava o desenho “Madagascar” com altíssima definição. Mas só altíssima definição não basta no mundo de hoje, da convergência total. A palavra de ordem é interatividade — troca de dados e conteúdo em tempo real. E para isso é preciso ter uma caixa conversora (set-top box) com independência de padrões, bidirecional, com mobilidade e por aí vai, conforme explicou em sua apresentação no evento Marcelo Zuffo, coordenador do projeto na USP.
— Apostamos na interoperabilidade de padrões — disse ele. — Nada de cometer erros do passado, como ocorreu com a escolha do PAL-M.
A caixa deve ser compatível com MPEG-2 e MPEG-4, IPv6 (sim, porque ela deverá ter também um número IP) e ser capaz de suportar Linux, Java, GSM, CDMA, WiMax e o que mais vier.
Várias redes sem fio para um mundo de gadgets
Do lado europeu, temos o DVB-H (Digital Video Broadcasting for Handhelds). Segundo Juha Lipianen, da divisão multimídia da Nokia, a principal vantagem do DVB-H é ser open-standard e já compatível com o DVB terrestre. Segundo seus requisitos, seria capaz de receber 15Mbps num canal de 8MHz e trabalha numa SFN (rede de freqüência única, na sigla em inglês). Além disso, foi projetado para economizar energia ao usar o “time-slicing”, processo em que os pacotes de dados chegam um de cada vez (o processo é conhecido, em inglês, pela expressão “IP Datacast Carousel”). Com isso, o receptor pode ficar “desligado” boa parte do tempo.
Segundo projeções da Nokia, a eficiência do DVB-H no uso da banda permitiria até 55 canais móveis. A resolução na telinha do celular seria de um padrão semelhante ao do VHS.
— A vantagem do DVB-H em relação às características móveis do ISDB (o padrão japonês de TV digital), por exemplo, é que este último é um produto que não pode ser separado da transmissão de TV. Já o DVB móvel pode ser transmitido junto com o canal de DVB terrestre ou num canal independente — diz um especialista.
O DVB-H está em testes em cidades de vários países europeus (Portugal, Espanha, Alemanha, Finlândia, França, Inglaterra, Holanda, e por aí vai) e espera-se que entre em teste nos EUA em 2006 (já está sendo testado em Pittsburgh). Também está em exame em Sydney, na Austrália.
Na Coréia, televisão no celular é poderosa e rápida
Enquanto isso, na Suíça, a Ericsson e a Sunrise, operadora suíça de telefonia móvel, fecharam parceria para transmissão de TV (com vídeo sob demanda) no celular, com um seletor de canais próprio. A TV celular com boa definição já é realidade na Coréia do Sul, com redes CDMA de terceira geração e alta velocidade (dá quase para zapear no telefone) na hora da troca de canais. No Brasil, já há aplicações de TV móvel com alguma qualidade no Vivo Play 3G (o EVDO usado no Samsung Evolution, por exemplo) e no TIM TV Access, nos Nokias 6600 e 3650.
Quem tenta resumir o futuro de todas essas possibilidades digitais e móveis é Gary Forny, do grupo de celulares e handhelds da Intel:
— A mobilidade do futuro consistirá em várias redes sem fio e múltiplos dispositivos para adotá-la — diz. — Os celulares estão cada vez mais perto dos computadores e a limitação não vai ser a tecnologia em si, mas o que se quer fazer com ela. Teremos cada vez mais formatos e modelos e cada pessoa escolherá um deles de acordo com suas necessidades. A televisão digital no celular é mais uma aplicação interativa entre tantas outras.
Há mais aplicativos de interatividade para TV digital em desenvolvimento aqui no Brasil. A FITec, instituição de pesquisa, trabalha em conjunto com a Aircode, a LG e a Zenith Electronics para criar um conjunto de novas aplicações interativas em TV digital. Elas estão baseadas no padrão americano ATSC/ ACAP, mas podem ser adaptadas para trabalhar com outras tecnologias, explica Lauro Ferreira Sigaud, gerente de negócios da FITec.
— Uma das aplicações é de entretenimento, voltada para interatividade em partidas de futebol, permitindo inclusive a comunicação do torcedor com outros espectadores — conta Lauro. — Outra é uma aplicação de t-government, que permitiria, via TV digital, acesso a serviços de governo com a ajuda de uma interface especial (que nada tem a ver com browsers em TV, um modelo que não funciona).
Enfim, o cardápio é amplo e variado. Este ano será rico em novidades. A decisão do padrão de TV digital deverá ser anunciada até o dia 10 de fevereiro e a operação comercial está marcada para começar dia 7 de setembro. É esperar para ver. Ver TV. E, possivelmente, interagir com ela.
Daqui para a frente, tudo vai ser diferente...
De acordo com Marcelo Zuffo, multidefinição é outra palavra de ordem para a TV digital.
— Todos os modelos precisam suportar multidefinição. E multiprogramação via OFDM (Orthogonal Frequency Division Multiplexing) — disse ele. — Com isso, se poderia transmitir dados a 19Mbps e vários programas ao mesmo tempo.
Para ele, é importante que não se tomem decisões precipitadas. Citou-se o exemplo da Itália, que optou por caixas com definição padrão, com MPEG-2.
— Depois, no meio do processo, decidiram que HDTV e MPEG-4 eram legais. Só que aí, já havia oito milhões de caixas já em uso (e subsidiadas pelo governo italiano).
No IDF, o ministro das Comunicações, Hélio Costa disse que o projeto de TV digital do governo será voltado para a TV aberta, pois a cabo e por satélite a digitalização praticamente já é feita.
— A TV digital deve estar ao alcance do grande público, e não apenas de quem pode pagar — disse Costa na abertura do evento.
Casa digital não é só TVzona e supermicrocomputador
Dentro de casa, a experiência digital será enriquecida com a comunicação entre diferentes aparelhos. Segundo Alesio Hagler, gerente de marketing do projeto da Casa Digital da Intel, engana-se quem pensa que a casa digital do futuro consiste apenas numa TV de plasma e num supermicro. Não precisa ser tudo isso, diz ele; o importante é perceber o quanto web e vídeo estarão interligados.
— A próxima geração da internet é a da internet passada em vídeo, e não mais apenas em dados e texto — disse. — Haverá convergência entre operadoras de banda larga e operadoras de TV digital.
Para Américo Tomé, gerente de plataformas de comunicação da Intel, a tecnologia da TV já se distancia dos tubos de raios catódicos em direção ã TV digital. Ela evolui de um terminal de acesso analógico para uma plataforma de entretenimento universal. E a aposta da Intel é a plataforma Viiv, que visa a incrementar a troca digital desse conteúdo de entretenimento. Não por acaso, no IDF se viram protótipos de casa digital da Semp Toshiba, com um controle remoto geral gerenciando tudo, num sistema padrão BTX com teclado wireless via radiofreqüência, gravador de DVD, dois sintonizadores de TV, leitor de cards e mais — tudo podendo ser ligado numa tela LCD ou num projetor.
Mas até aí falamos da experiência na sala de estar. E nos celulares? É bem verdade que já existem algumas opções de TV móvel por aqui. Mas no futuro o intercâmbio de conteúdo no celular deverá ser bem mais dinâmico. Existem algumas iniciativas interessantes para tal. Uma delas é o MediaFLO, da Qualcomm, nos EUA. Outra é o DVB-H, baseada no padrão europeu de TV digital, que já aparece na UE e mesmo numa cidade americana.
MediaFLO, bolado pela Qualcomm, em dois sabores
O MediaFLO (o FLO quer dizer Forward Link Only) é uma plataforma móvel de distribuição de mídia (daí ser oficialmente chamado de MediaFLO MDS) que a Qualcomm, a inventora do CDMA, bolou e está apresentando no mercado americano. Segundo Valerijonas Seivalos, vice-presidente e diretor-geral da Qualcomm no Brasil, a tecnologia tem dois modelos. Um não é em tempo real e permite ao usuário baixar programas para o celular nas horas mortas da madrugadas, selecionando-o num menu na operadora. Depois, assiste quando quiser.
O outro modelo, que está sendo preparado em conjunto com a Verizon nos EUA e deve chegar ao mercado no segundo semestre de 2006, é um MediaFLO em tempo real, com streaming wireless e móvel de vídeo em freqüências adquiridas pela própria Qualcomm no espectro americano. A empresa já mostrou aqui no Brasil um celular-conceito com alguns vídeos nativos — de alta qualidade — que seriam enviáveis via MediaFLO.
— O MediaFLO funciona em 700MHz nos EUA e cobre 25 quilômetros — conta Valerijonas. — A Qualcomm é a figura do transportador para estimular o mercado com o OFDM.
Com esse MediaFLO ao vivo e a cores, o que a Qualcomm imagina é uma edição de conteúdo dedicada ao formato do telefone celular.
— Na verdade, a formatação do conteúdo de vídeo já não constitui um problema, sendo feita com relativa facilidade — pondera Valerijonas.
A velocidade média da transmissão desses dados é de 2Mbps, mas ela pode chegar a 1 bit por hertz — o que significa que, numa faixa de 6MHz, chegaria a 6Mbps, com 20 canais de programação em potencial.
Informação: Aesp/ O Globo Informática


