DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Na disputa com japoneses e europeus, os americanos começaram ontem uma série de demonstrações do seu padrão de TV digital (ATSC) para jornalistas, membros do governo federal, políticos e representantes da indústria.
Para conquistar a preferência do governo, das emissoras e fabricantes brasileiros, os americanos acenam com empréstimos para compra de equipamentos e financiamento para pesquisa e dizem que o Brasil terá ganhos exportando TVs se o seu modelo for escolhido. O governo promete uma decisão até meados de fevereiro.
"É importante para os EUA [que o Brasil adote o modelo ATSC], mas é mais importante para o Brasil, que poderá aumentar suas exportações de aparelhos de TV para a América do Norte. Os EUA não produzem TV", afirmou Robert Graves, presidente do Fórum ATSC - entidade criada para defender o padrão ATSC, da qual fazem parte empresas como Microsoft, LG Eletronics, emissoras como a Televisa (México) e CBS (EUA) e entidades de pesquisa como o MIT (Massachusets Institute of Technology).
A ATSC (Advanced Television Systems Comittee) é uma entidade internacional sem fins lucrativos que desenvolve padrões para TV digital, com cerca de 130 membros, a maior parte emissoras, fabricantes de equipamentos e de material eletrônico.
O principal argumento apresentado pelos americanos foi a economia de escala que o país teria ao adotar o padrão ATSC.
Segundo eles, a indústria brasileira poderia fabricar os aparelhos de TV, os conversores (que seriam acoplados às TVs analógicas para que possam converter o sinal digital) e os demais equipamentos da TV digital a um custo mais baixo porque poderia produzir em grandes quantidades, uma vez que o mercado para o modelo ATSC seria maior.
"Se o Brasil adotar esse padrão, asseguraria que ele fosse o escolhido em toda a América, e o país seria o principal exportador", disse Graves. Ele informou ainda que a agência de fomento americana Opic (Overseas Private Investment Corporation) teria disponível cerca de US$ 150 milhões para ser investido no Brasil -por empresas americanas que poderiam estar associadas a brasileiras- em pesquisa. Graves disse também que o Eximbank americano poderia financiar emissoras brasileiras na compra de equipamentos produzidos nos EUA.
Na demonstração de ontem, os americanos mostraram como seria possível, durante uma transmissão de um jogo de futebol, ter mais detalhes sobre a partida (informações sobre os jogadores), responder a enquetes, acessar serviços como a consulta a base de dados da Receita Federal ou fazer compras usando os botões disponíveis no controle remoto. A interatividade da TV digital está presente também em outros padrões.
Na semana passada, representantes das emissoras de TV estiveram reunidos com a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil). Segundo o ministro das Comunicações, Hélio Costa (PMDB-MG), as empresas apresentaram um documento no qual listavam as características que consideravam importantes na TV digital.
Segundo o ministro, por essas características, o padrão japonês seria o escolhido das emissoras. O ministério chegou a dizer que os americanos estariam praticamente descartados. Graves, no entanto, avalia que a oposição mais forte ao padrão americano venha da Globo. "A Globo parece querer desconsiderar as outras vantagens [do padrão americano], mas nós continuamos a tentar convencer a Globo. Achamos as outras emissoras mais receptivas."
Parlamentares analisam hoje proposta da Casa
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
O presidente da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (PC do B-SP), deverá se reunir hoje com parlamentares envolvidos com a implantação da TV digital para tentar fechar uma proposta consensual do Congresso para o assunto. Na última quinta-feira o deputado Walter Pinheiro (PT-BA) apresentou projeto sobre o tema.
No texto do projeto do deputado petista não há definição sobre qual modelo de TV digital deverá ser adotado pelo Brasil. Pelo projeto, no entanto, a tecnologia digital seguirá o preceito de dar prioridade a padrões abertos, livres de restrições proprietárias quanto a sua cessão, alteração ou distribuição. Ou seja, teria vantagem na negociação com o Brasil quem oferecesse sua tecnologia sem cobrar royalties.
O projeto do parlamentar tem apenas seis artigos e trata do assunto de forma mais genérica, estabelecendo princípios para a "introdução da tecnologia digital nos serviços de radiodifusão". De acordo com os princípios expostos no projeto de lei, "as tecnologias deverão ser selecionadas de modo a aumentar o número de prestadoras por localidade, maximizar a criação de novos postos de trabalho e contribuir para o desenvolvimento da indústria cultural e de produção de equipamentos no Brasil".
O projeto estabelece ainda que "nenhuma tecnologia digital poderá provocar aumento no espaço ocupado no espectro [faixas de freqüência por onde as emissoras transmitem] por uma outorgada [emissora]". Ou seja, as emissoras não ganharam mais freqüência. Pelo projeto do deputado, as emissoras ganhariam um canal adicional temporário para introduzir a TV digital. Depois de um período de transição, a emissora devolveria o antigo canal analógico à Anatel
Informação: Abert/ Folha de São Paulo - Dinheiro


