Emissoras e teles duelam por TV digital

DANIEL CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

A movimentação em Brasília na última semana de representantes dos três sistemas de TV digital escondeu a verdadeira "guerra" que está sendo travada nos bastidores: a disputa entre as redes de TV e as empresas de telefonia pelo modelo econômico que será adotado no país com a nova tecnologia.

Hoje, na TV analógica, para transmitir um único sinal as redes precisam de uma freqüência com a largura de 6 MHz. Com a digitalização e a compressão dos sinais, caberá muito mais informação (vídeo, áudio, dados) nesses mesmos 6 MHz. Assim, em vez de um só sinal, as emissoras poderão irradiar quatro simultaneamente. Em outras palavras, uma emissora pode virar quatro.

As teles não querem o "monopólio" das TVs sobre o espectro de UHF e VHF e travam uma guerra para tirar um pedaço dele, que usariam para explorar internet de banda larga, telefonia e venda de vídeo sob demanda. O modelo econômico é que definiria se as TVs manterão seus 6 MHz ou se perderão parte deles para novas emissoras e para as teles, na chamada convergência. Dependendo do modelo, a TV digital poderá movimentar no Brasil até R$ 100 bilhões nos próximos anos, segundo empresários. TVs e teles são as grandes forças no tabuleiro da TV digital.

As primeiras têm poder político. As segundas, poder econômico (faturaram R$ 100 bilhões em 2004, 14 vezes mais que as redes, e são grandes financiadoras de campanhas eleitorais). Fornecedores de tecnologia (japoneses, americanos e europeus) e fabricantes de equipamentos são atores secundários nessa questão, que começa a ser concluída na próxima sexta-feira, quando o governo federal deverá divulgar relatório final com estudos sobre TV digital.

Além de aspectos econômicos e tecnológicos, a definição da TV digital tem implicações político-eleitorais. Está em jogo a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva.

Segundo analistas ouvidos pela Folha, se Lula fizer o que as TVs querem -ou seja, optar já pelo padrão japonês e limitar o acesso das teles ao espectro de TV digital-, ele terá a gratidão das emissoras, que retribuirão com uma cobertura generosa na campanha.

"O governo se move no sentido de que uma aliança com a Globo significa uma campanha mais tranqüila. De outro lado, isso pode ter conseqüências terríveis", afirma Celso Schröder, coordenador-geral do FNDC (Fórum Nacional pela Democratização das Comunicações), entidade que faz parte do conselho consultivo do SBTVD (Sistema Brasileiro de TV Digital) e que defende o compartilhamento do espectro por canais públicos (como TV Senado), comunitários e universitários.

A TV digital provocou um racha no governo. De um lado, está o ministro Hélio Costa (Comunicações), que defende abertamente o padrão japonês, em oposição às teles. "O sistema japonês é o melhor para a TV aberta brasileira. O modelo de negócios da TV digital será o mesmo do da analógica. Não estamos discutindo telefonia digital, mas televisão digital", disse Costa em entrevista à Folha.

O grande "rival" de Costa entre os quatro ministros que mais têm poder de influenciar Lula nessa decisão é Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento) -os outros são Antonio Palocci Filho (Fazenda) e Dilma Rousseff (Casa Civil). Furlan é visto pelos donos de TVs como aliado das teles e defensor do padrão europeu ou americano. Furlan não quis dar entrevista.

A forma como o governo vem conduzindo as discussões sobre TV digital é criticada por quase todos os "atores" envolvidos na questão -menos as redes. "A maneira como o Ministério das Comunicações foca a discussão está equivocada. A discussão sobre tecnologia no momento é irrelevante", afirma Marcos Magalhães, presidente da Philips para a América Latina. Para Magalhães e Schröder, antes de discutir qual o padrão, o país deveria definir o modelo econômico (quais serviços terá, qual será o modelo de negócios, qual a inserção global?).

A opção por definir antes o padrão tecnológico pode favorecer as TVs. A decisão agora (o governo promete a definição para este mês) daria vantagem ao padrão japonês, porque ele, segundo as redes e a Universidade Presbiteriana Mackenzie, que fez testes nos três padrões, seria o único que oferece alta definição e recepção em veículos e celulares na mesma faixa de 6 MHz das emissoras de TV. Mas, em pouco tempo, todos os padrões deverão ser equivalentes. Por que não adiar? "Se a decisão for adiada para o ano que vem, as TVs terão muito menos poder", esclarece João Carlos Saad, presidente da Bandeirantes.

Por 2006 ser ano de eleições, parte do governo (e todas as redes) tem pressa em definir a tecnologia. Articula-se um grande espetáculo para inaugurar a TV digital em 7 de setembro: um jogo da seleção brasileira de futebol transmitido em alta definição para telões instalados nas maiores cidades do país. Um gol de placa.

Para redes de televisão, só padrão japonês impede avanço das teles

DO COLUNISTA DA FOLHA

Para as redes de TV, somente o padrão de modulação do sistema de TV digital japonês (o BST-COFDM) proporciona hoje as funcionalidades que lhes assegurarão sobrevivência nos próximos dez anos. Essa tecnologia lhes permitiria bloquear o acesso das teles e de novas emissoras ao espectro da TV digital, mantendo o "monopólio" do ar.
Um sistema de TV digital completo inclui o padrão de modulação (seu "coração"), o padrão de codificação (as redes querem o MPEG-4) e o "middleware" (algo como um Windows do sistema, que "roda" os aplicativos). As TVs entregaram ao presidente Lula, no último dia 18, uma carta em que pedem a adoção do BST-COFDM, a possibilidade de elas transmitirem em alta definição (HDTV) e em definição standard (SDTV), com recepção simultaneamente em televisores fixos, móveis (em veículos) e portáteis (celulares) usando 6 MHz.
Segundo as TVs, só o padrão japonês permite isso -o que os outros sistemas negam. Assim, elas poderão transmitir para telefones celulares (desde que o aparelho seja de terceira geração e tenha um chip especial) sem passar pelo tráfego das operadoras de telefonia móvel. As teles, que querem gerar receitas com o tráfego de vídeo, obviamente são contra.

Para as emissoras, principalmente a Globo, o padrão americano não é interessante porque ele ainda não é robusto o suficiente. Testes da Universidade Mackenzie em São Paulo mostraram que o padrão, desenvolvido para um país quase todo cabeado, não funciona numa nação em que 93% da população só vê TV pelo sinal aberto, pelo ar. Os televisores não "pegariam" seu sinal.

Já o europeu também não interessa porque, apesar de permitir alta definição, foi desenvolvido e seria direcionado para um modelo em que as teles são dominantes.
Na Globo, o padrão japonês é visto como a única forma de assegurar um diferencial de qualidade para a TV aberta (a alta definição) e de impedir o avanço das teles.

Apesar de o sistema permitir a multiprogramação (quatro canais simultâneos), a idéia é transmitir o máximo em HDTV. A definição standard só seria usada em ocasiões especiais, como numa Olimpíada: a emissora se dividiria em dois canais quando o Brasil estivesse simultaneamente disputando uma medalha na natação e outra no vôlei, por exemplo. Dividir seus 6 MHz em quatro não interessa às redes: encarece custos (terão que produzir ou comprar mais conteúdo), pulveriza a audiência e não necessariamente atrai mais verba publicitária.

"A alta definição é a única chance de a TV aberta se manter competitiva", diz um alto executivo da rede. Na alta definição, a imagem é melhor do que a do DVD. Há uma sensação de profundidade muito maior. A funcionalidade, no entanto, encarece a produção, porque capta detalhes que a TV standard oculta, como fissuras em cenários. Devem-se gastar 25% a mais em produção. No raciocínio da Globo, as teles querem forçar as TVs a serem clientes delas ou impedir seu avanço de qualidade, pela tecnologia ou pelo modelo econômico.
Para a Globo, se escolher o padrão americano, o Brasil criará uma "reserva de mercado" para as teles. Isso porque o modelo dos EUA ainda não permite transmitir para televisores fixos e celulares usando a faixa de 6 MHz das TVs. É necessário uma freqüência extra, a ser operada por uma tele.

Diz a Globo ainda que o padrão europeu já transmite para televisores e celulares, mas, quando isso ocorre, o sinal do aparelho fixo perde qualidade. Representantes do consórcio europeu negam. Além disso, as TVs abertas da Europa não têm alta definição, o que cria um filão para as teles distribuírem conteúdo em HDTV via internet de banda larga.






Informação: Abert/ Folha de São Paulo - Dinheiro


Rádio AGERT

Cresce a importância do Consumidor 60 mais no varejo

O assessor de Relações Governamentais do SIndilojas Porto Alegre, Victor Pires, detalhou o guia Geração Prateada - Como o Consumidor 60 mais consome, o que ele busca e como vender para ele. Ele ressaltou que no RS, há mais pessoas nessa faixa de idade do que crianças de 0 a 14 anos.

Secretário Judiciário do TRE-RS diz quais os cuidados que as emissoras de rádio e TV devem ter no período eleitoral

O secretário Judiciário do TRE-RS, Rogério da Silva de Vargas, falou quais os cuidados que as emissoras de Rádio e TV devem ter no período eleitoral. Destacou que no dia 28 de agosto começa o horário político nas emissoras.

Vice-presidente do TRE-RS destaca a relevância da Campanha pelo Incentivo ao Voto e Combate a Abstenção

O vice-presidente do TRE e Corregedor Regional Eleitoral, desembargador Antônio Maria Rodrigues de Freitas Iserhard, participou em Passo Fundo do lançamento da Campanha de Incentivo ao Voto e Combate a Abastenção.