TV digital: Japão tem US$ 500 milhões para emissoras

Renato Cruz
Ana Paula Lacerda

Para convencer o governo a aceitar o seu padrão de TV digital, os japoneses fizeram uma oferta para agradar principalmente aos radiodifusores. Os detentores do padrão ISDB, defendido pelas grandes emissoras, ofereceram US$ 500 milhões em financiamento para que as empresas de TV façam a transição do analógico para o digital. Os recursos são do Japan Bank for International Cooperation (JBIC). "Se a demanda for maior, haverá mais recursos", garantiu Murilo Pederneiras, consultor do padrão japonês ISDB no Brasil.
Segundo ele, a proposta já foi entregue ao governo.

Os japoneses não ofereceram outros itens com valores definidos, além do financiamento às emissoras. "O investimento dos fabricantes de televisores virá naturalmente", disse o consultor. Não só os japoneses, mas também os fabricantes originários de outros países terão de investir em novas linhas de produção para aparelhos digitais.

O ISDB não se comprometeu a instalar uma indústria de semicondutores no Brasil, segundo ele. "O que nos comprometemos é a fazer um estudo de viabilidade em conjunto."

O Japão aceitou incorporar parte do trabalho desenvolvido pelos grupos de pesquisa do Sistema Brasileiro de Televisão Digital (SBTVD), que reuniu universidades e institutos de pesquisa do País. Eles vão aceitar o MPEG-4, tecnologia internacional de compressão de vídeo, como parte de seu padrão, como foi sugerido pelos brasileiros. Os japoneses também concordaram em integrar o middleware (software que funciona como sistema operacional) e os aplicativos desenvolvidos no Brasil ao seu padrão. Também ofereceram zerar os royalties.

"A opção por um padrão não significa adotar um padrão fechado", afirmou Augusto Gadelha, secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia. "Queremos fazer inovações, inclusive as sugeridas pelos consórcios de pesquisa." Mas é verdade que o governo já decidiu pelo padrão japonês? "Não é verdade ainda", respondeu Gadelha.

Pederneiras, do ISDB, afirmou não ter ouvido de nenhum interlocutor do governo que a decisão já estivesse tomada. Apesar disso, disse estar "bastante confiante" e esperar que a decisão saia amanhã ou, no máximo, segunda-feira.

Enquanto os japoneses acenam com US$ 500 milhões para financiar as emissoras brasileiras, os europeus oferecem 400 milhões do Banco Europeu de Investimentos. Além disso, 100% dos royalties seriam reinvestidos em pesquisa e desenvolvimento e a União Européia baixaria a zero a taxa de importação de TVs produzidas no Brasil.

O principal argumento a favor da Europa foi que o Brasil não ficaria dependente de poucos fornecedores de equipamentos. "O padrão europeu é o mais usado no mundo e existirá uma gama de fornecedores, o que propicia a competição. Se o Brasil escolher o padrão japonês, ficará dependente de poucos fornecedores, sediados em um país cujo mercado nada tem a ver com o Brasil", disse o diretor de Tecnologia da Siemens, Mario Baumgarten.

Claudio Raupp, vice-presidente de Celulares da Nokia e integrante da DVB,afirmou que a empresa não terá interesse de produzir celulares que transmitam o padrão japonês no Brasil. "No Japão, não se usa GSM. Teria de ser feito um modelo só para o Brasil, diferente do usado no resto do mundo."

O padrão europeu foi mostrado em diversas aplicações. "Havia boatos de que o DVB não seria capaz de se adaptar a middleware nacional ou não conseguiria transmitir em alta definição, em definição padrão e para portáteis no mesmo canal. Hoje demonstramos que não é verdade", disse Baumgarten. Ele e Magalhães afirmaram que têm informações do governo de que nada foi decidido.

Para europeus, notícia parece "plantada"
Ana Paula Lacerda
Renato Cruz

Representantes da Coalizão DVB Brasil, que defendem o padrão europeu, disseram ontem que a notícia publicada pela Folha de S. Paulo de que o governo já teria se decidido pelo padrão japonês parecia "plantada". Para o presidente da Philips e diretor da coalizão, Marcos Magalhães, "é muito estranho que tenha se dito isso na véspera de o padrão europeu ser demonstrado."

A Coalizão DVB fez em São Paulo uma demonstração das possibilidades do sistema e afirmou que sua proposta está feita e não será alterada. O grupo inclui as empresas Philips, Nokia, Siemens, STMicroelectronics, Rohde&Schwarz e Thales.

Ao contrário dos europeus, a Rede Globo, defensora do padrão japonês ISDB, não acredita que a notícia foi "plantada", segundo o site da ComputerWorld. O diretor geral de engenharia da Globo, Carlos de Brito Nogueira, não espera adiamento da decisão. "Não ouvi ninguém dizer que houve mudança de posição do governo sobre o cronograma", afirmou o executivo à repórter Ceila Santos. No entanto, ele preferiu não opinar se o padrão europeu ainda está no páreo.

"Como já decidi, se estou aqui?"
Em Londres, Lula não confirma modelo de TV digital

Tânia Monteiro
ENVIADA ESPECIAL
LONDRES

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva evitou ontem comentar de forma clara se já teria ou não optado pelo modelo de TV Digital que será adotado pelo Brasil. "Como é que eu já decidi se eu estou aqui?",indagou o presidente aos jornalistas que o abordaram, durante a visita à mostra Tropicália, no Centro Cultural Barbican, em Londres. O presidente encerrou ontem uma visita oficial de dois dias ao Reino Unido.
O ministro da Fazenda, Antonio Palocci, que integrou a comitiva do presidente, afirmou que a decisão ainda não foi tomada. "Estamos em fase final de avaliação e o presidente Lula tem uma previsão de decidir até a sexta-feira (amanhã)", disse Palocci, em entrevista coletiva.

"Ele pode decidir ou adiar, é uma decisão muito pessoal dele. Nosso papel, dos ministros, é levar ao presidente todas as considerações técnicas sobre o tema, além dos detalhes das negociações com países e empresas", afirmou o ministro da Fazenda. Palocci ressaltou que "o assunto é muito complexo, envolve muita negociação e o objetivo do governo é obter o máximo de vantagens para o Brasil".

Em Brasília, o ministro das Comunicações, Hélio Costa, que defende a escolha do padrão japonês, mostrou-se cauteloso ao tratar do tema e afirmou que prefere aguardar a decisão de Lula. "O presidente estará munido de todos os dados a respeito dos três sistemas de TV digital. Do nosso ponto de vista, a adoção do novo padrão deveria ter como prioridade ser um novo passo de avanço tecnológico para a produção do setor eletroeletrônico nacional."

Ainda em Londres, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, reforçou a negativa, dizendo que, até onde sabia, o assunto não estava decidido.

Fábrica é "pedra de toque" de escolha
Governo quer a instalação de indústria de semicondutores para promover salto tecnológico do País

Isabel Sobral
Beatriz Abreu
BRASÍLIA

A instalação de uma fábrica de semicondutores no Brasil passou a ser condição básica para a escolha do padrão de TV digital. "A pedra de toque da discussão é a fábrica de semicondutores", disse ontem a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, durante reunião com entidades da sociedade civil para tratar do assunto. Ela explicou que o governo vai aproveitar as discussões para criar as bases de uma nova indústria no País. "É a nossa Volta Redonda", comparou, conforme relato de um dos participantes.

A produção de aço em Volta Redonda foi o ponto de partida para a industrialização do País a partir dos anos 50 e 60, principalmente a instalação das montadoras no Brasil.

Da mesma forma, a fábrica de semicondutores é vista no governo como condição para promover um salto tecnológico na indústria brasileira. Por isso, essa é uma prioridade da política industrial.
Foi a partir da fabricação de semicondutores que Taiwan se transformou de produtora de arroz e abacaxi em "tigre" asiático, exportador de produtos de alta tecnologia.

O governo tem afirmado nas reuniões que não pretende apenas que o País seja uma base de montagem desses produtos, mas quer a efetiva transferência de tecnologia.

Os japoneses já apresentaram um estudo garantindo a viabilidade técnica de instalar uma indústria de semicondutores no Brasil. Também europeus e americanos ficaram de estudar propostas nesse sentido, mas os japoneses se adiantaram mais.

Os americanos se mostraram os mais reticentes. O governo aguarda respostas para decidir, segundo se informava ontem no Palácio do Planalto e em vários ministérios.

A escolha deverá ocorrer logo. Dilma descartou a possibilidade de adiá-la para 2007, como pediram as entidades da sociedade civil. Amanhã, os ministérios envolvidos devem entregar ao Planalto seus pareceres sobre qual o padrão mais vantajoso para o Brasil.

Do ponto de vista técnico, leva vantagem o japonês. Pelo lado comercial, o europeu oferece maior potencial de exportação. Pelo lado político, há a pressão das emissoras de TV - apoiadas pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa - pelo padrão japonês. Tudo isso e mais as chances de instalação da fábrica de semicondutores serão analisados amanhã, mas não necessariamente haverá uma decisão.

"A ministra desmente que haja definição em relação ao padrão e diz que em 10 de março não haverá definição nesse sentido, mas no máximo uma sinalização da política industrial de que o País precisa", relatou a deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ), que esteve ontem com os representantes das entidades civis na reunião com Dilma. A ministra também recebeu Hélio Costa e técnicos do Ministério das Comunicações para nova rodada de avaliações.

INVESTIMENTOS
Na sexta-feira, uma delegação de 20 japoneses esteve no Palácio do Planalto para discutir oficialmente a questão. Os japoneses sinalizaram com o propósito de construir a fábrica, mas o chefe do Departamento de Tecnologia e Radiodifusão do Ministério dos Negócios Interiores e Comunicações do Japão, Okubo Akira, disse que a instalação dependeria da demanda, tanto do mercado brasileiro quanto do internacional.

Há uma tentativa de que pelo menos os países do Mercosul acompanhem a escolha brasileira, o que daria ganho de escala na venda dos componentes. Na terça-feira, o assunto foi tratado com o secretário de Comunicação do Ministério do Planejamento da Argentina, Guilherme Moreno.

O Brasil importa hoje a maioria das peças necessárias à montagem de televisores. No caso dos televisores com telas de cristal líquido, as importações alcançam cerca de 85% de componentes. O peso da política industrial na decisão é uma vitória do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan.

As discussões sobre a escolha da TV digital no governo vinham sendo conduzidas pelo Ministério das Comunicações e caminhavam para a escolha do padrão japonês. Furlan argumentou com Dilma que o Brasil precisava buscar outras vantagens ao tomar sua decisão. A partir daí, as discussões passaram a ser centralizadas na Casa Civil e outros ministérios passaram a participar.

SP terá produção de componentes
Smart investiu US$ 15 milhões em fábrica para produzir fase final de circuitos integrados em Atibaia

Renato Cruz

A americana Smart Modular Technologies inaugurou ontem fábrica de memórias para computadores em Atibaia (SP), o primeiro resultado concreto da política do governo de atrair fábricas de componentes para o Brasil, anunciada em novembro de 2003.

Foram investidos US$ 15 milhões.
"Nossos planos não param por aí", afirmou Noboru Takahashi, diretor-presidente da Smart no Brasil. "Vamos trazer outros produtos." A fábrica brasileira tem só a fase final da produção do circuito integrado, chamada encapsulamento. Se tivesse o processo completo, o investimento seria de mais de US$ 1 bilhão. As lâminas de silício, chamadas de "wafers", cortadas e transformadas em chips, são importadas, fornecidas pela Samsung.

A Smart produz, no Brasil, pentes de memória para computadores. Segundo o analista Ivair Rodrigues, da I.T. Data, foram vendidos cerca de 5,6 milhões de microcomputadores no País em 2005.

Cerca de 40% das memórias vieram do mercado legal. "A Smart forneceu mais ou menos metade delas", disse Rodrigues.
A unidade fabril tem capacidade para produzir 2 milhões de circuitos integrados por mês. "Só 30% da fábrica está ocupado com máquinas", disse Takahashi. "Temos muito espaço para crescer." A fábrica conta com 100 funcionários. Parte da produção é feita em 2 turnos e outra parte, em 3.
Em meados deste ano, a Smart planeja começar a exportar a partir do Brasil. Eles trabalham para implementar até lá o Recof, regime aduaneiro especial, criado pela Receita Federal, que facilita a importação e a exportação.

Ao mesmo tempo, eles trabalham para instalar o software de gestão SAP, que irá integrar a unidade brasileira às outras fábricas da companhia no mundo. "O Recof exige um mínimo de US$ 5 milhões em exportações no primeiro ano e de US$ 10 milhões no segundo", disse o diretor da Smart. "Vamos atingir as metas com tranqüilidade."

Iain MacKenzie, presidente mundial da Smart, afirmou que, depois de estabelecida a fábrica, a companhia pode trazer atividades de pesquisa e desenvolvimento ao País. "O Brasil é parte importante de nossa estratégia", afirmou o executivo.

A Smart já fabricava pentes de memória em Guarulhos (SP), desde 2002. Os circuitos integrados eram importados. Com a inauguração, a unidade de Guarulhos foi desativada. Depois das memórias, a Smart do Brasil planeja trazer novas linhas de produto, para as áreas de telecomunicações e informática. Para sua unidade fabril, a empresa não recorreu a financiamentos governamentais, como linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Entrevista: "O que está em discussão é o modelo de negócio"
Marcos Alberto Sant"anna Bitelli, advogado

Carlos Franco

O advogado Marcos Alberto Sant"Anna Bitelli, especialista em Direito da Comunicação, diz que o sistema de televisão digital, que deveria ser discutido com maior participação da sociedade e da cadeia de produção do setor eletroeletrônico, foi atropelado pelo modelo de negócios que interessa às emissoras de televisão aberta ou às empresas de telefonia celular. "O que está em discussão não é a adoção do modelo americano, europeu ou japonês, mas o modelo de negócios." Veja trechos da entrevista:

Qual a vantagem de um modelo em detrimento de outro?
Cada modelo foi criado para atender a necessidades locais; todos podem funcionar e todos podem ser adaptados em qualquer lugar. Nos EUA, 85% da televisão é paga, então o modelo digital priorizou a alta resolução e a qualidade de som. A internet em banda larga também já está disseminada nos EUA e o sistema de televisão digital não teve a preocupação de inclusão digital que o governo brasileiro tem manifestado ter. Os softwares (programas) do sistema europeu são mais abertos, mas o japonês tem a vantagem da imediata mobilidade.

Dá para diferenciar mais?
O sistema japonês permite que a televisão aberta entre nos celulares - se estes tiverem chip para isso - sem ter que passar pelas operadoras de celulares; é tudo em tempo real. Então, esse sistema não muda a realidade das operadoras de televisão aberta, porque os aparelhos passam a funcionar como um rádio, captando a onda. Só que essa transmissão deixa de gerar receita para as operadoras de telefonia e 75% dos aparelhos no Brasil são pré-pagos. Então, isso leva a outra pergunta: será que as operadoras vão financiar aparelhos sem receber das emissoras de TV o que elas ganham pela publicidade?

E o sistema europeu?
O sistema europeu, mais disseminado hoje e com tecnologia disponível e softwares mais abertos, garante às operadoras o ganho pela veiculação de som e imagem. É o mesmo que alguém ligar de um aparelho da Telefônica para um aparelho celular e pagar tarifa em todas as pontas. Há um controle da operação pelas partes.

Para o Brasil, qual seria o melhor sistema?
Do ponto de vista da indústria, a Eletros (associação que reúne fabricantes, entre outros, de aparelhos de televisão) diz que não foi devidamente consultada. Na verdade, nem se chegou a discutir o sistema de televisão digital, pois o que se discute o tempo todo é o sistema de negócios. As emissoras de TV aberta não querem perder com o novo mercado e as operadoras de celular o vêem como nova fonte de receita. O que um sistema ou outro pode resultar em produção industrial não foi avaliado.





Informação: Abert/ O Estado de S.Paulo - Economia


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