TV digital: financiamento de programas divide entidades

As divergências relacionadas à implantação da TV digital no Brasil vão além da escolha do padrão a ser adotado, como demonstrou audiência pública realizada ontem pelo Conselho de Comunicação Social do Congresso.

O modelo de negócios também dividiu opiniões. Os participantes se dividiram, por exemplo, quanto à viabilidade de serem transmitidas várias programações em definição padrão por um mesmo canal, em vez de uma só programação em alta definição.

Para o engenheiro Fernando Mattoso Bittencourt Filho, integrante do Conselho de Comunicação Social, o modelo de multiprogramação é inviável. Isso porque, segundo ele, as TVs vão continuar a viver da veiculação de anúncios, e o mercado publicitário permanecerá o mesmo.

"Com a multiprogramação, haverá menos recursos para cada um produzir seus programas", ressaltou.

O presidente da Câmara de Conteúdo do Conselho Consultivo do Sistema Brasileiro de TV Digital (SBTVD), Alexandre Kieling, discordou do argumento e defendeu a busca de outras formas, que não apenas a publicidade, de financiar a produção de conteúdo. Ele contestou a afirmação de Bittencourt Filho segundo a qual teriam sido "desastrosas" as poucas experiências de transmissão gratuita que fugiram do modelo calcado na publicidade.

Kieling afirmou que, nesses casos, não houve uma avaliação mercadológica. "Ainda não há um estudo suficientemente profundo que nos ajude a fazer um plano de negócios", disse ele.

Qualidade
Outro argumento apresentado por Bittencourt Filho foi de que a multiprogramação resulta em um produto de segunda categoria. Ele observou que a diferença entre a definição padrão e a alta definição é maior do que a de uma TV preto-e-branco para uma colorida. O engenheiro ressaltou ser importante que a TV aberta chegue às pessoas com qualidade competitiva em relação às mídias pagas, como a TV por satélite e a cabo, senão haverá prejuízo para as empresas de comunicação e para a parcela da população que não puder pagar para ter uma qualidade maior.

"A alta definição é uma tendência mundial. A TV do futuro é a TV de alta definição", afirmou Bittencourt Filho.

O pesquisador-sênior da Diretoria de TV Digital do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) Giovanni Moura de Holanda, por sua vez, defendeu a multiprogramação como uma forma de ampliar a oferta de conteúdo à população, mantendo-se a possibilidade de alta definição. Ele lembrou que a inclusão social e a flexibilidade na composição do modelo de exploração estão entre os propósitos previstos no decreto que criou o SBTVD.

Porém, destacou que a transmissão em alta definição terá um preço maior porque o set-top-box (caixa de conversão do sinal digital para analógico) capaz de decodificar esse tipo de sinal é mais caro.

Segundo Holanda, uma das sugestões feitas com base em estudo analítico do Sistema Brasileiro de TV Digital coordenado pelo CPqD é de que as emissoras que optarem pela alta definição tenham que transmitir o mesmo programa também em definição padrão.

Como na transição para o modelo digital será mantida a transmissão analógica, poderia haver versões do mesmo programa com sinal de transmissão analógico, definição padrão e alta definição.

Democratização
Alexandre Kieling, da SBTVD, destacou que a multiplicidade de canais possibilitada pela TV digital deve democratizar a TV brasileira, já que aumenta a perspectiva de participação de setores da população que hoje estão fora dos sistemas convencionais de produção de conteúdo. Kieling acredita que essa abertura de espaço para novos atores possibilitará a redistribuição de poder.

Em relação ao novo marco regulatório a ser criado com a implantação da TV digital no País, Kieling pediu para o Congresso considerar não apenas as possibilidades tecnológicas oferecidas, mas também as perspectivas sociais e econômicas.





Informação: Agência Câmara


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