Renato Cruz
A delegação de ministros brasileiros trabalha para consolidar, com o governo local, a proposta do Japão para que seu sistema seja adotado na TV digital brasileira. Faltam poucos pontos. O principal é um compromisso concreto de investimentos na área de semicondutores no Brasil. "Construir um ecossistema de microeletrônica no País é um condicionante forte", afirmou Jairo Klepacz, secretário de Tecnologia Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. A agenda oficial começa hoje na capital japonesa.
A comitiva é formada pelos ministros Luiz Fernando Furlan (Desenvolvimento), Celso Amorim (Relações Exteriores) e Hélio Costa (Comunicações). Até ontem à noite, Costa não tinha chegado ao Japão.
Também participam Klepacz, André Barbosa Filho (Casa Civil), Augusto Gadelha (Ciência e Tecnologia), Roberto Pinto Martins (Comunicações) e Edmundo Machado de Oliveira (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial). Os dois últimos chegariam hoje.
O embaixador do Brasil em Tóquio, André Amado, disse que não está prevista, durante a visita, a assinatura de nenhum documento pelos países. "Mas não quer dizer que não acontecerá", completou.
O ministro Celso Amorim afirmou que o objetivo é negociar: "Muitas coisas já foram entendidas, e agora precisam ser fixadas de forma mais clara". A idéia é consolidar tudo o que foi conversado sobre o tema nos últimos meses.
É consenso hoje no governo que os japoneses, com seu sistema ISDB, apresentaram as melhores propostas para a TV digital. Ainda é preciso colocar tudo o que foi falado num documento, o que, se tudo correr bem, deve acontecer por aqui.
Sobre a Europa, com seu sistema DVB, a avaliação é que os esforços não foram tão bem coordenados. Numa reunião em Brasília, um representante da fabricante européia de semicondutores ST Microelectronics chegou a falar que, para ele, não importava qual padrão o Brasil iria adotar, pois era capaz de fazer chips para todos.
Os americanos, com seu ATSC, não conseguiram incluir um fabricante de semicondutores na sua proposta.
Governo não quer dar idéia de que cedeu às pressões
Para o governo brasileiro, é importante conseguir para o País uma fábrica de semicondutores no processo de decisão da TV digital por dois motivos. Primeiro, para reduzir as importações, que somaram US$ 2,9 bilhões em 2005. Segundo, para não parecer que simplesmente cedeu às pressões dos radiodifusores, caso escolha o padrão japonês ISDB, o preferido das emissoras de TV.
O Brasil estuda oferecer incentivos para quem quiser instalar uma fábrica local, que podem incluir financiamento, treinamento de pessoal, redução de impostos, reforço na logística e garantia de prazos no desembaraço alfandegário. "Tem de ter visão de mercado", disse Jairo Klepacz, do Ministério do Desenvolvimento. "Isso merece um plano de negócios, por meio de estudos internos e externos." A idéia é voltar a falar com os europeus, depois da viagem ao Japão.
Os ministros brasileiros devem se encontrar hoje com o primeiro-ministro japonês, Junichiro Koizumi, e com os ministros Toshihiro Nikai (Economia, Comércio e Indústria) e Heizo Takenaka (Assuntos Internos e Comunicações).
Europeus querem tratamento igual ao dos japoneses
Defensores do sistema DVB pressionam
para que ministros também visitem a Europa
Gerusa Marques
Europeus envolvidos na escolha da TV digital ainda não desistiram de levar também para a Europa a delegação de ministros em viagem ao Japão, negociando a instalação no Brasil de uma fábrica de semicondutores. Com os principais interlocutores do governo fora do Brasil, o assunto está em compasso de espera tanto no Palácio do Planalto quanto entre os concorrentes do sistema japonês: europeus e americanos.
A idéia de visitar governos e fábricas na Europa foi apresentada ao governo brasileiro pelo embaixador da União Européia no Brasil, José Pacheco, no mês passado, logo após o ministro das Comunicações, Hélio Costa, ter anunciado a viagem ao Japão. O ministro Luiz Fernando Furlan, que também está no Japão, é um dos que defendem a ida à Europa, mas ainda não há garantia de que a viagem ocorrerá realmente.
Interlocutores das empresas que compõem a Coalizão DVB Brasil (Philips, Nokia, Rhode&Schwarz, Siemens, ST Microelectronics e Thomson), que defende a adoção do modelo europeu, disseram que, além da sugestão do embaixador, convites já foram encaminhados às autoridades brasileiras por governos de países onde estão instaladas as principais fábricas, como a França e a Holanda. Eles esperam a manifestação formal do governo brasileiro, mas a expectativa deles é de que a viagem possa acontecer no fim deste mês ou no início de maio.
A holandesa Philips e a franco-italiana ST Microelectronics, inclusive, já manifestaram ao governo brasileiro a intenção de instalar no Brasil uma fábrica de semicondutores. Mas as companhias condicionaram a proposta a estudos de viabilidade econômica, que levam cerca de um ano para serem concluídos, mesmo prazo previsto anteriormente pelos japoneses.
Para que a viagem ocorra, ela tem de ser autorizada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que escalou o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para chefiar a comitiva que está no Japão.
Informação: Aesp/ O Estado de S.Paulo Economia


