Mais de vinte anos no batente, com passagens por quase todas as rádios do Estado. É com toda essa bagagem que o jornalista Beni Andrade, um dos decanos do rádio rondoniense, exprime seu ceticismo sobre o meio. Imprensa Popular ouviu Andrade numa entrevista dada aos jornalistas Gessi Taborda e Aldrin Willy entre goles de café e largas baforadas de cigarro no Chaveiros Gold, recôndito onde fica o general da Banda do Vai Quem Quer, Manoel Mendonça, o Manelão, quando não está à frente de seus foliões.
Beni começa respondendo a uma pergunta chave: “O rádio, de quando você começou na carreira até hoje, evoluiu ou regrediu?” E o tarimbado radialista responde sem pestanejar: “Tenho um conceito formado sobre isso. O rádio evoluiu muito, tecnicamente. A tecnologia realmente transformou o rádio. Mas de conteúdo ele continua pobre.” O porquê disso ele resume numa palavra: comprometimento.
Para Beni Andrade, o atrelamento político das rádios tirou a liberdade dos profissionais. “Houve uma época em que o rádio tinha mais liberdade, em que o profissional do rádio dizia ‘ou eu faço aquilo que sei fazer ou o cabresto em mim não vai pegar então eu prefiro cair fora’”, conta Beni.
MERCADO INSUFICIENTE
Na opinião do jornalista, existe em Rondônia uma desproporção entre o mercado publicitário e o número de emissoras radiofônicas. Segundo ele, é “humanamente impossível” que esse parco mercado dê conta de todas as emissoras. Algo que, diz, leva novamente à questão quanto ao comprometimento. “O mercado é incipiente. Para manter esse número extraordinário que temos de meios de comunicação o nosso comércio não suporta isso”, afirma.
SEM JORNALISMO
“O ouvinte está condicionado e fica feliz só no ‘vamos ouvir’ ou ‘acabamos de ouvir’, só isso”, assevera Andrade. Essa constatação deixa o rádio rondoniense longe do ideal defendido pelo experiente radialista. Isto é, para Beni pelo menos 80% da programação do meio deveria ser destinada ao jornalismo.
— É aquele rádio prestador de serviço, informativo, em que você tem um “recoper”, ou dois ou três, percorrendo os boletins policiais. Tem que ter seu setorista no Palácio do Governo, na Prefeitura Municipal. Informações da vida econômica do município, quantos milhões foram resgatados hoje, quantos foram protestados, porque isso lhe dá um perfil da nossa economia. E isso não existe aqui. Ninguém fornece dados. Parece que é mistério, não pode informar. Então o rádio tem um campo muito grande para trabalhar, para ser prestativo e informativo. Eu faria um rádio dessa maneira.
“Um rádio essencialmente informativo, jornalístico, prestador de serviços” é algo, na opinião de Beni, que não se tem em Rondônia. O máximo que as rádios locais conseguem, diz ele, “é gente falando do pé inchado que foi preso, do outro que tentou estuprar não sei quem, é aquele rádio...” Fora isso, há apenas o chamado “vitrolão”: “Vamos ouvir”, “acabamos de ouvir”.
Beni frisa que esse problema não é só do rádio. Ele aflige também os outros meios de comunicação. “Quando você abre um jornal aqui e vai ler determinada matéria, você começa a ler e já sabe quem escreveu e a serviço de quem está”, diz. “A coisa é no contexto geral, não é só o rádio”.
O homem do rádio acredita que as mudanças só virão quando houver por parte das empresas de comunicação um compromisso com o cliente, consumidor final do seu produto. Ou seja, o ouvinte, no caso do rádio.
— Dada a fragilidade em termos de estrutura dessas empresas, você vê muito colega de trabalho que se depender só do salário que ganha está ferrado. Então, até por força das circunstâncias, ele acaba tendo certas ligações que não convém a um profissional da informação.
IGREJA, RÁDIO E TV DIGITAL
Ao contrário do que muitos pensam, Beni Andrade vê como salutar a penetração cada vez maior das igrejas no meio radiofônico. No seu entender, esse movimento por parte das igrejas – seja católica, evangélica etc. – em se apoderar de emissoras e horários de programação é uma forma de democratizar a comunicação. Enquanto isso, “estão tentando fazer o contrário agora” – Beni muda um pouco de assunto – “com o advento da digitalização do rádio e da televisão”. E continua: “Isso está revoltando a população, porque mais uma vez vai ser mantido o monopólio: da Globo, das grandes redes de televisão, das grandes redes do rádio”.
Ele explica a pretensão dos grandes grupos com a digitalização: “O objetivo de digitalizar o rádio e a televisão é exatamente para que tenhamos, no espectro eletrônico, um espaço maior para a viabilização de um número maior de canais. Mas do jeito que a Globo está batendo pesado nesse governo ela vai ficar com o monopólio.”
Para entender melhor, Beni dá um exemplo. “Quando você consegue uma concessão, no sistema analógico, você ganha 1 canal. Nesse sistema analógico, 1 canal ocupa 6 Mhz. Com a entrada do sistema digital, esses 6 Mhz comportam 8 canais. E a Globo e as demais redes estão tentando enganar dizendo “nós temos 6 Mhz de concessão” e aí elas ganham mais 8 canais para transmitir”.
NEGÓCIO
Sobre o possível papel educativo do rádio, de promoção cultural e de cidadania, Beni é enfático. Não há espaço para esse fim, porque o veículo hoje, no Brasil todo, “é um negócio” – exceção feita às rádios e TVs educativas. Um dos motivos é a concentração das concessões nas mãos de políticos.
— Muitas pessoas podem até ficar contrariadas comigo. Mas não adianta você ter trinta, quarenta anos de rádio, ser um profissional que conhece o meio e sabe fazer seu trabalho se não for político, ou não fizer parte do “esquema”. Se você pegar as mais de 5700 emissoras de rádio hoje existentes no Brasil, 80 a 90% estão nas mãos de políticos. Então [o rádio] é uma moeda de barganha, não adianta.
“OUVIR RÁDIO HOJE ME FAZ MAL”
Perguntado se costuma ouvir rádio, o jornalista Beni Andrade surpreende: “Hoje eu não ouço rádio porque isso me faz mal.” Andrade se julga “irresponsavelmente saudosista” e alfineta o produto local. “Eu gosto de ouvir emissoras de fora, dos grandes centros, emissoras diferentes, para eu aprender um pouco mais. Porque se eu ficar restrito aqui, eu não vou aprender nada”.
Por isso, sendo um saudosista, Beni só costuma ouvir “emissoras mais antigas, de outros lugares, onde ainda existe realmente um bom jornalismo, uma programação diferenciada”.
Falando sobre a representação política e sindical dos radialistas, Beni mostra-se sem grandes esperanças.
“A classe de radialista é tão desunida, tão desunida que em termos de representatividade ela está órfã de pai, mãe e parteira”. A frase ilustra bem seu pensamento sobre a falta de representação política dos profissionais do rádio. “Não há uma consciência plena com relação à importância de se ter um representante”, conclui.
SEM BAGAGEM
Os jovens profissionais egressos das faculdades de comunicação terão uma séria desilusão ao entrarem no mercado. “Eles não tem bagagem nenhuma. Bagagem é o dia-a-dia. Bagagem, meu amigo, é no microfone ali dia-a-dia, produzindo, correndo atrás, fazendo”, avalia Beni Andrade. “Aquela teoria que ele recebe na faculdade quando for começar a colocar em prática, ele vai sentir que o céu não é tão azul assim. E vai ter que ralar muito para poder chegar um dia e falar: hoje eu sou um radialista.”
Informação: Abert / Imprensa Popular - Porto Velho,RO,Brazil


